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11 janeiro 2011

Repensar os animais - Paola Cavalieri

Pela primera vez, vou publicar um texto que não é meu. Eu gostaria muito que fosse. Segue.
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Nos anos mais recentes, os animais não-humanos têm estado no centro de um intenso debate filosófico. Mais concretamente, muitos autores criticaram a moral tradicional, defendendo que o modo como nós tratamos os membros de outras espécies é eticamente indefensável. Usualmente, usamos animais como meios para os nossos fins – na verdade, tratamo-los de maneiras que consideraríamos profundamente imorais se fossem destinadas aos seres humanos. Apesar dos animais serem “pacientes morais” – isto é, seres cujo tratamento pode estar sujeito a uma avaliação moral –, o seu estatuto é infinitamente inferior ao nosso. Será que esta duplicidade de padrões está garantida? E, se está, em que base assenta?

Apesar de não ser completamente ignorada pelos filósofos, a primeira justificação oferecida é forte e está bem espalhada a nível da sociedade, sobretudo devido à sua simplicidade. À questão a respeito do que nos separa dos outros animais, a resposta é: o facto de eles não serem humanos. Nesta perspectiva, aquilo que é significativamente diferente é a posse, ou falta, de um genótipo característico da espécie Homo Sapiens. Será que esta é uma boa resposta? Não. Aqueles que apelam ao facto de se pertencer a uma espécie trabalham dentro do quadro do paradigma do igualitarismo entre humanos. E é justamente a linha de raciocínio que sustenta a igualdade entre humanos que, ao rejeitar a relevância moral da pertença a uma raça ou a um sexo, implica também a rejeição da ideia de que a pertença a uma determinada espécie seja em si mesma instituinte de uma diferença significativa quanto ao estatuto moral de um ser. Se alguém afirma que as características biológicas como a raça e o sexo não têm relevância ética, como pode então atribuir relevância a uma outra característica biológica, como a pertença a uma espécie? As perspectivas morais que aceitam o “especismo” – a ideia que defende a atribuição aos membros da nossa própria espécie um estatuto moral especial - ao mesmo tempo que rejeitam o racismo e o sexismo são internamente inconsistentes.

O especismo absoluto dificilmente poderá ser plausível. Mas há maneiras mais sofisticadas de defender a nossa presente duplicidade de padrões às quais os defensores teóricos do status quo tendem a recorrer. Para a maioria dos filósofos, não é a pertença a uma determinada espécie, mas a racionalidade que tem uma relevância central. Podemos admitir, a bem do argumento, a presunção (questionável) de que a racionalidade é um privilégio humano para nos podermos concentrar na importância moral da racionalidade.

Um argumento muito conhecido, que remonta pelo menos a Kant, depende da ideia de que os seres racionais são a condição para a existência da moralidade. As normas éticas dirigem-se a um tipo concreto de seres – os agentes morais. Os agentes morais são os seres racionais cujo comportamento pode ser submetido à avaliação moral. Se os agentes morais não existissem, não poderia haver normas éticas. Consequentemente, a ética é essencialmente um assunto que diz respeito aos agentes morais. Não obstante a sua plausibilidade superficial, este argumento baseia-se num mal-entendido. A sua conclusão consegue-se pela passagem da ideia de que apenas os seres racionais podem ser moralmente responsáveis para a ideia de que apenas o que é feito a seres racionais tem importância moral (total). Mas o como, isto é, a possibilidade da moralidade, é uma coisa; o quê, isto é, o objectivo da moralidade, é outra. Reconhecer que os agentes morais tornam a moralidade possível não significa que eles sejam os únicos pacientes morais (totais). Podemos ver que na verdade não defendemos esta perspectiva se atendermos ao facto de não pensarmos que as crianças pequenas, ou os indivíduos intelectualmente diminuídos, por não poderem agir de acordo com normas éticas, não devem ter um estatuto moral especial.

Há uma segunda versão mais radicalmente exclusivista do apelo à racionalidade, e que atribui um valor instrumental a esta característica. A noção central é que a introdução de um ser ou de um grupo de seres na comunidade moral pode ser justificada através de um tipo de acordo. Dado que para cumprir o acordo é preciso ser-se racional, o acordo incluirá apenas seres racionais, que serão os únicos pacientes morais. À luz desta ideia, as normais morais são as normas que indivíduos racionais com interesses próprios aceitariam cumprir, mediante a condição dos outros procederem exactamente da mesma maneira. Se o argumento anterior sugere a posição contemporânea de John Rawls, também lhe reconhecemos a ideia das vantagens mútuas do contratualismo de origem Hobbesiana. Mas esta perspectiva tem consequências inaceitáveis, uma vez que os contratantes com interesses próprios não obtêm nenhuma vantagem ao aceitarem princípios que oferecem garantias a indivíduos incapazes de dar qualquer garantia em retribuição, pelo que os primeiros podem ignorar os interesses daqueles que não são capazes de retribuir. Mas, se a regra de ouro “trata os outros como quererias que os outros te tratassem a ti” é substituída por aquela que podemos chamar a regra de prata, “trata os outros como eles te tratariam”, a vantagem mútua tem o efeito devastador de afastar a imparcialidade ética. Mais uma vez, demonstramos que detemos isto quando não privamos de direitos os jovens ou os desamparados ou apenas os seres humanos futuros que não podem ter deveres para connosco.

Apesar de muitas outras defesas da doutrina da superioridade humana terem sido avançadas, o apelo à pertença a uma determinada espécie, o apelo à posse de racionalidade como uma pré-condição para a moralidade, e o apelo a esta mesma característica como um meio para o acordo entre sujeitos são certamente as mais básicas defesas desta perspectiva, em torno das quais todas as outras se situam. Se nenhuma delas consegue justificar a manutenção dos animais não-humanos na sua presente condição moral inferior, parece plausível inferir que a nossa atitude actual é profundamente errada. Mas que tipo de perspectiva deve ser adoptada em vez da actual? Para responder a esta questão, muitos dos críticos da moral tradicional tendem a apelar às suas posições normativas específicas. Contudo, isto não é necessário. Temos já à nossa disposição uma teoria que, se considerada imparcialmente, pode enfrentar todas críticas anteriores. É o conjunto de princípios e juízos que recentemente têm sido reunidos sob os auspícios da doutrina universal dos direitos humanos.

No centro da teoria dos direitos humanos está a protecção dos interesses vitais – no bem-estar, na liberdade e na vida – de alguns seres. De quais, exactamente? Apesar da resposta mais comum, e aparentemente tautológica, ser “dos seres humanos”, esta afirmação é, como já vimos, inaceitável pelo facto de que a discriminação com base na espécie é análoga às formas de discriminação que a mesma doutrina condena no sexismo e no racismo. Ao contrário dos autores dos manifestos políticos, os filósofos que analisam esta questão parecem estar cientes deste problema, e, quando chamados a pronunciar-se sobre isso, a referência à espécie é introduzida de forma apressada e indirecta. O que pode, então, explicar o porquê dos direitos humanos – de dizer o que é que, nos seres humanos, justifica a atribuição de uma igual protecção fundamental?

Entre as soluções avançadas, a mais defensável parece ser aquela que é apresentada pela linha de raciocínio que apareceu no início da década de 60, culminando na elaboração apresentada pelo filósofo americano Alan Gewirth. De acordo com esta linha de raciocínio, o critério para o acesso à protecção que os direitos humanos oferecem assenta apenas em ser-se um agente – um ser com intenções que se preocupa com os seus objectivos e que os quer atingir. Todos os seres com intenções caracterizam-se pela capacidade de desfrutar da liberdade e do bem-estar (e da vida, que é a pré-condição para estes dois bens), quer directamente, quer como pré-requisitos para a acção; e, para todos estes seres, o valor intrínseco do seu desfrute é o mesmo.


Para escolher um critério em vez da intencionalidade, qualquer outra característica – seja a racionalidade ou qualquer outra entre as capacidades cognitivas tradicionalmente vistas como “superiores” – seria arbitrária, uma vez que excluiria da consideração interesses que são relevantemente semelhantes até ao ponto em que são igualmente vitais para os seus portadores.

Uma vez apresentada, esta resposta – que tem, entre outros aspectos, o efeito importante de barrar o caminho a desacreditadas perspectivas perfeccionistas do mundo - parece óbvia. E, ainda assim, envolve uma consequência que não é igualmente óbvia: com base na própria doutrina que os estabelece, os direitos humanos não são apenas humanos. A aceitação implícita da ideia de que a pertença a uma determinada espécie não é moralmente relevante não só elimina da teoria qualquer referência estrutural à posse de um genótipo Homo Sapiens, mas a obrigação de garantir direitos fundamentais iguais a todos os seres humanos, incluindo os não-racionais, implica que o critério para a atribuição de tais direitos deve situar-se num nível cognitivo acessível a uma grande quantidade de animais não-humanos.

O que poderá significar alargar a atribuição de direitos fundamentais para além das fronteiras da nossa espécie? A propósito disto, deve notar-se que duas características fundamentais definem a classe particular de direitos morais a que chamamos direitos humanos. Por um lado, apesar das tentativas para incorporar na doutrina alguns direitos positivos, ou direitos à assistência, os direitos humanos continuam a ser fundamentalmente direitos negativos, ou direitos à não-interferência. Por outro lado, desde que os direitos humanos se apresentaram como uma resposta às formas de violência e discriminação institucionalizadas que marcaram a primeira metade do século XX, o modelo, quer da sua implementação, quer da sua violação, é baseado na organização e na acção do estado.

Reconsideremos portanto a situação presente em face destes aspectos. Biliões de animais que preenchem o requisito da intencionalidade são feridos, aprisionados e mortos na prossecução de objectivos humanos. Mas a inflicção destes ferimentos, o aprisionamento e a morte destes animais são apenas o oposto da protecção da interferência institucional que a teoria dos direitos humanos procura garantir. Consequentemente, uma implementação justa desta teoria requereria mudanças legais que implicariam que os animais em causa passassem da condição de objectos para a condição de sujeitos de direito, bem como uma proibição geral das práticas de exploração que são tornadas possíveis pelo seu presente estatuto.

Assim, parece que, longe de estarem no fim de uma pirâmide moral no topo da qual nos mantemos com segurança, (a maioria) dos não-humanos põe-nos perante a força de uma exigência ética justificada. Por muito deslocada que possa parecer da nossa realidade do dia-a-dia, esta conclusão talvez não surpreenda aqueles de nós que vêem o progresso moral como a história da substituição das visões hierárquicas por princípios a favor da igualdade.

Paola Cavalieri
Editora do Jornal de Filosofia “Etica & Animali” e Co-Editora do The Great Ape Project: Equality beyond Humanity

Tradução de Miguel Moutinho, do original “Rethinking Animals”, retirado de “The Philosopher´s Magazine” Ethics Portal, em www.philosophers.co.uk/ethics.php.

Fonte - CEDA – Centro de Ética e Direito dos Animais

10 dezembro 2010

Tratamento ético aos animais

Você come carne ou ovos? Se sim, sabe qual a origem deste alimento? O animal que você estará saboreando no almoço teve uma vida o mais próximo do natural possível? Ou viveu apenas 6 meses, confinado, torturado, com uma lâmpada na cara que fica acesa por 6 horas seguidas, depois apagada 6 horas seguidas, simulando um dia e uma noite na metade do tempo, de modo a forçar o animal a pôr ovos na metade do tempo?

No mundo todo, principalmente em países com pouco espaço, há pecuária realizada por meio do confinamento. Os bois e vacas são mantidos em pequenos currais, onde não podem andar, correr, manter laços com outros de sua espécie, comer pastagens naturais. São forçados a comer a mesma ração no tempo arbitrariamente determinado. São tratados como máquinas. Imaginem uma vida assim. Pensem nos escravos. Um absurdo que isso tenha existido no Brasil, não? Pois então, a vida deles era melhor do que a vida a que são submetidos muitos animais. Mas, no caso do Brasil, isso praticamente não existe. O gado bovino é criado quase exclusivamente de forma extensiva, ou seja, os animais são soltos, comem pastagem. Por isso, quero me dedicar mais às aves, que, no caso do Brasil, são os animais que sofrem mais (e, numa escala de sofrimento, os porcos vêm em segundo lugar).

Certamente todos vocês já viram um caminhão levando galinhas, não? Todas aquelas gaiolinhas amontoadas, com tão pouco espaço que as aves não conseguem sequer abrir as asas. Alguns animais ficam na parte de baixo, no fundo. Imaginem respirar naquele canto onde nem a luz do dia alcança. Agora imaginem que aquilo É A VIDA daqueles animais. Elas sairão do caminhão e continuarão naquela mesma gaiola o resto de suas vidas, sem poder ciscar, passear, esticar as asas. Alguns produtores arrancam o bico das aves, afinal, elas são apenas máquinas, certo?, onde se coloca a ração em um lado, e se recolhe o ovo no outro. Como já mencionei, há lugares em que, para se obter mais ovos, e, sabendo-se que o ciclo de produção de ovos das galinhas é baseado em dia/noite, enfia-se uma lâmpada na cara das galinhas, para que o ciclo dia/noite ocorra na metade do tempo. Claro que há “pequenos” efeitos colaterais: uma galinha criada solta vive até 6 anos. Uma galinha nessas condições vive 6 meses. Mas tudo bem, não é? A carne dela também será aproveitada. Ou será vendida, ou será transformada em ração para outras galinhas.

Bem, há coisas muito, MUITO piores do que eu descrevi aqui (como pintinhos sendo jogados vivos em máquinas de moer), mas aí já estaria beirando o sensacionalismo, já que, no Brasil, essas coisas piores seriam exceções. A regra, entretanto, é aquilo que descrevi: confinamento.

Pessoal, isso não vai acabar enquanto não houver um sistema alternativo. As pessoas não deixarão de consumir ovos ou carne, pois essas torturas acontecem longe de nossas vistas da cidade grande. A solução é asfixiar financeiramente essas empresas não-éticas. Deixar de comprar de quem produz às custas de sofrimento alheio! E como fazer isso? Como, no supermercado, saber qual ovo veio de uma galinha torturada e qual veio de uma galinha que viveu (e talvez ainda viva, já que uma galinha vive bastante tempo) livre? Este é o objetivo deste e-mail.

Existem certificadoras, empresas que verificam se o processo de produção é feito respeitando o animal e seu bem-estar, e dão selos a empresas que atendem estes e outros requisitos.

Neste link você pode ver sobre a certificação. Neste, dá pra ver como saber, pelos rótulos, qual empresa utiliza um sistema de produção ético (dêem preferência para alimentos orgânicos certificados!). Aqui, você confere dicas para ajudar a acabar com o confinamento de animais.

Neste site, se você se interessar, você pode ver vários outros tipos de absurdos que são cometidos com os animais. E aqui, você tem acesso a várias certificadoras, e você pode ver como funciona esse processo, que é regulado pelo governo.

Gente, eu não estou falando pra paramos de comer feijoada, ovo, churrasco, etc, etc. Isso é muito bom, e se, para termos essas coisas a única opção for torturar os animais, eu estou certo que a tortura jamais acabaria. Estou apenas dizendo o seguinte: há opção! Dá pra continuarmos comendo essas coisas, mas oferecendo uma vida plena, sem torturas, a esses animais.

Só pensem sobre isso. Talvez um produto orgânico custe 2 reais a mais, já que, de fato, custa um pouco mais não tratar os animais como máquinas (mas esse valor tende a diminuir quanto mais houver produção deste tipo de alimento). Mas será que não vale a pena pagar 2 reais a mais sabendo que o animal do qual você se alimentará não foi torturado? Eu acho que vale.

07 outubro 2010

Aborto até o nono mês???

Aproveitando que só se fala nisso (por maus motivos), vou dar uma palavrinha também. Vocês já devem ter visto em algum lugar uma moção da igreja contra a lei que legaliza o aborto, nos seguintes termos: "diga não à lei que legaliza o aborto até o nono mês". Ora, que absurdo, claro que eu sou contra uma lei que legaliza aborto até o nono mês! Quem seria a favor disso? Imaginem, o bebê poderia nascer amanhã e seria saudável, e viveria fora do útero materno tranquilamente, e aí a mulher decide abortar? É um absurdo!

Ok, ok. Estranhei. Eu sei que existem leis no Brasil que são ridículas, e tal. Mas a lei que é ridícula não existe no vácuo. Ela tem contexto. E, normalmente, o contexto explica a existência dessa lei. Por exemplo, hoje em dia as pessoas tendem a achar absurdo criminalizar o adultério. Mas, em uma época em que a religião era muito mais forte, e a honra blablabla, fazia sentido que o adultério fosse considerado crime. Hoje não.

Então como pode existir e prosperar um projeto de lei que vai totalmente contra o espírito do tempo? Hm... Curioso. Bom, o que um cidadão faz nessa situação? Suspende o juízo? Fala sobre futebol? Repassa uma corrente na internet? Tá bom, são opções. Mas eu fui atrás desse projeto de lei. E sabem o que eu descobri? Vejam só, a lei libera o aborto em:

1 - qualquer situação, até 3 meses de gestação (sou favorável)
2 - em caso de estupro, até 4,5 meses de gestação (sou contra)
3 - em caso de risco de vida à mãe
4 - em caso de doença grave

Achei até bem razoável. Mas espera aí. Onde está a liberação até o nono mês de gravidez? Você, leitor mais inteligente, já percebeu qual é a jogada. A lei é clara em relação ao tempo de gravidez (3 meses, 4 meses e meio) para gestações normais, mas não especifica tempo em casos de risco de vida, ou seja, em gestações especiais. Mas espera aí. JÁ É ASSIM HOJE! Aliás, em caso de estupro, esta lei é até mais restritiva, já que hoje não há um tempo máximo para este caso. A única mudança que a lei implementaria seria o aborto liberado em qualquer situação até os 3 meses. Ou seja, a lei NÃO é contrária ao sentimento social. E não estou dizendo que a sociedade seja favorável ao aborto, pq acho que não é, mas admite o debate nestes termos (aborto até 3 meses), sendo que jamais admitiria sequer o debate de um aborto de gestação normal até o nono mês.

Perceberam como é fácil, sem mentir (apenas omitindo), colocar a população contra uma coisa que esta população não conhece? Que vergonha, hein, igreja!! Que vergonha!!!

Ps.: sobre a Dilma, nem acho que o problema seja ela ser favorável ao aborto. Ora, cada um tem sua opinião, e se sua opinião, como a minha, for contra o pensamento da maioria das pessoas, vc que aceite pagar o preço, ué! O que não pode é ser favorável a uma coisa polêmica, contrária ao pensamento da maioria, e aí, na boca da urna, mudar de idéia! Aí não, né!

30 setembro 2010

Urubuzando a Bienal


Rolou um debate sobre o uso de animais na arte, e eu fiquei assistindo quietinho, pois ainda não havia formado uma opinião a respeito. O debate deu-se a partir de um texto que uma ONG publicou sobre os urubus usados na Bienal. Segundo o texto, os urubus iriam ficar ouvindo música alta, iriam ficar expostos à luz, iriam sofrer isso e aquilo. Argumento vai, argumento vem, e agora eu tenho uma opinião! Não é lindo? Segue:

Eu fiquei, durante esses dias, lendo os textos de todos, e lendo também o que saía na internet sobre o assunto, e acho que agora já tenho uma opinião sobre o assunto. Mas, antes de mais nada, queria fazer uma correção: diferentemente do que estava no texto do abaixo-assinado, os 50 alto-falantes não tocam música nenhuma. O silêncio deles é parte da obra.

Vamos lá. A princípio, não vi problemas em se usar um animal na obra. Era de se supor que eles seriam bem tratados, e também que não seriam bichos selvagens que foram confinados exclusivamente para a exposição, até pq, se fosse o caso, aí a discussão nem seria sobre arte; seria sobre polícia, e acredito que os organizadores da Bienal não estão interessados em aparecer nas páginas policiais.

Mas, intuitivamente, alguma coisa estava errada, e foi nisso que fiquei pensando durante esses dias. E aqui segue o que eu pensei.
O texto postado neste grupo iniciou uma discussão sobre o TRATAMENTO (foco nesta palavra) dos animais na exposição. Aliás, o próprio texto foca esse aspecto, quando diz que é um absurdo não a exposição em si, mas as condições a que os animais estariam submetidos (os alto-falantes que estariam tocando música alta, o estresse de ficar o dia inteiro sob forte iluminação e sob os olhares e barulhos dos visitantes, etc), de forma que, aparentemente, o texto não condenaria a exposição dos urubus se eles estivessem sendo bem tratados, e foi isso que levou o grupo a discutir as vantagens biológicas do urubu ser dominado pelo homem (e poder ser exposto) versus as dificuldades que ele passaria na natureza, etc.
Na minha opinião, portanto, a discussão estava equivocada. Acho que ninguém discorda quanto a ser imperativo que animais domésticos ou domesticados sejam bem tratados. Além disso, a discussão quase partiu para 'aquilo é arte?', mas, ainda assim, acho que não se discutiu a essência do que estava acontecendo: 'é justo/lícito/correto/ÉTICO que se use animais vivos em uma obra artística?'.

Reitero um ponto, para que fique bem claro: estou 'descartando' a discussão sobre o tratamento dos animais pq acho que isso é um ponto de convergência. O bom tratamento dos animais é premissa, não está aberto a questionamentos, e o texto inicial, com toda a intenção de se mostrar contra o uso dos animais, acabou apelando para a mistificação de que os animais estariam sofrendo, provavelmente com a intenção de sensibilizar ainda mais o leitor, mas isso fez com que se escapasse a discussão principal, que é essa que estou propondo agora (e que propus a mim mesmo enquanto pensava sobre tudo o que vocês escreveram): 'é correto que se use animais vivos, ainda que bem tratados, na arte?'.

Para balizar minha opinião, utilizei a igual consideração de interesses, tema do Peter Singer. Questionei-me:
- Ser exposto numa obra de arte trará de forma objetiva e incontestável algum benefício para o animal?
Evidentemente a resposta é 'não', já que ele seria (deveria ser) bem tratado de qualquer forma. Pior ainda se estivermos falando de um animal selvagem, capturado apenas em nome da arte.
- Ter o animal exposto numa obra de arte trará de forma objetiva e incontestável algum benefício para os homens?
A resposta também é 'não', já que qualquer tipo determinado de arte é sempre contingente, nunca necessário (o que não significa que a arte em si não seja necessária; mas existem infinitos tipos de arte, e aquela específica que usa os urubus não é necessária).

Reparem que estas questões, se aplicadas ao uso de cobaias, ou ao uso de animais na alimentação, trarão respostas diferentes, já que há sim benefícios claros e inequívocos aos homens na criação de vacinas e medicamentos, e a alimentação nem precisa ser argumentada, certo?

Bem, por esses motivos acho que o uso de animais como 'obras de arte' deveria ser proibido. Aliás, acredito que os animais possuem o mesmo grau de inimputabilidade de uma criança, o que nos leva, no mínimo, a pensar se o tratamento dispensado a ambos não deveria ser o mesmo. Imaginem uma criança que mora na rua, que é espancada pelos pais, sendo exposta numa obra de arte (atenção: ela não estaria sendo exposta POR CAUSA dos maus tratos que sofre, mas seria um complemento da obra, seria parte da obra, e não A obra), e, questionado, o artista diria que ela está sendo muito bem tratada, recebe 3 refeições por dia, cuida da higiene, e está muito melhor na exposição do que estava antes, na rua ou apanhando dos pais.

Ah, já admito logo: sou especista, o que não significa que acho que podemos maltratar os animais à vontade. Há formas de utilizá-los para o bem da humanidade sem fazê-los sofrer, ou ao menos evitando ao máximo qualquer sofrimento desnecessário.

E, pra finalizar, minha opinião sobre aquela obra de arte específica: acho uma idiotice usar os urubus. Acho que ficaria mais significativo se, com os 50 alto-falantes mudos, o artista formasse a imagem de um urubu, por exemplo.

10 dezembro 2009

Votação quântica

Leiam isso:

"Na noite de ontem, o Parlamento unicameral hondurenho decidiu, por 111 votos contra 14, confirmar a decisão que tirou o presidente do cargo em 28 de junho, negando a possibilidade de que Zelaya retornasse para concluir seu mandato até 27 de janeiro.

"Com isso, o Congresso foi contra o cumprimento de um dos pontos principais do Acordo Tegucigalpa-San José, defendido pelos Estados Unidos e pela União Europeia como um caminho para sair da crise.

"O documento, assinado em 30 de outubro pelo governo de fato e representantes do presidente deposto, previa a restituição de Zelaya, por meio de votação no Parlamento, além da formação de um governo de unidade nacional e o estabelecimento de uma comissão de acompanhamento e investigação."


Pra quem não acompanha, ou acompanha pelo que falam por aí, é o seguinte: o tal documento não previa a RESTITUIÇÃO de Zelaya, e sim que seria o Congresso a decidir sobre isso. Quem quis isso, inclusive, foi Zelaya. Micheletti queria que fosse a Suprema Corte a decidir.

Ou seja, é mentira que a restituição estava no documento. Aliás, nem é preciso ser muito informado pra perceber isso, né? Só um pouco de lógica já demonstra a mentira. Vejam o que o próprio texto diz: "O documento (...) previa a restituição de Zelaya, por meio de votação no Parlamento". Como assim? Então a votação seria só de mentirinha? Seria uma votação com resultado já conhecido antes mesmo da votação? Seria uma espécie de votação quântica? Será que cada deputado recebeu um papelzinho dizendo em que ele deveria votar? será que a votação teria que ser pró-Zelaya por unanimidade, ou seria feito um sorteio para decidir quem vota em quê?

Que beleza de (certa) imprensa, hein... Que tal o slogan: "Informando a qualquer custo, mesmo contra toda a lógica"? Não vejo a hora de noticiarem a revisão da lei da gravidade...

27 novembro 2009

Unibanida

Agora que passou o frisson causado pela feinha da Uniban, quero falar. Em primeiro lugar, a menina é feia, mas isso não é motivo para o linchamento moral a que ela foi submetida. Em qualquer país sério, ela já estaria milionária. Como não estamos num país lá muito sério, tenho minhas dúvidas se ela vai ser indenizada, e, mesmo se for, se vai receber essa indenização tão rapidamente quanto as pessoas juntaram-se para agredí-la.

Em segundo lugar, ela estava com um vestido ridículo. Há quem ache provocante, mas ainda que estivesse pelada, ninguém tem o direito de encostar a mão nela. Se fosse o caso (se estivesse pelada), que chamassem a polícia para prendê-la, mas fazer o que fizeram é absurdo. Ou o quê? A mulher provoca, o cara estupra, e a culpa é dela? "Ah, mas ninguém ia estuprá-la". É? Bem, se, por exemplo, eu vejo um monte de gente armada vindo pra cima de mim e dizendo que vai me matar, fica tentando arrombar a porta do lugar que eu estou, etc, etc, eu realmente acredito que vão me matar. Ou então tá todo mundo apoiando o Maluf de 1989: "se o sujeito tá com vontade sexual, estupra, mas não mata"? É isso? Se a mulher provocar, pode estuprar?

Em terceiro lugar, ela estava na Uniban. Esse foi o erro dela. Qualquer universidade séria teria feito o que? Expulsado todo mundo e feito um pedido de desculpas público para a menina, e ainda teria dado a ela uma bolsa de estudos integral. Mas não. Os sábios mantenedores expulsaram a vítima. Daí já se vê o que é realmente importante na visão de quem manda por lá: a vida, a dignidade, o respeito, nada disso vale mais que a mensalidade de mais de 50 alunos! Imagina, perder todas essas mensalidades...

Muito bem, tudo isso posto, fiquei por muito tempo pensando nas justificativas que eu escutei. Coisas do tipo: "é verdade, isso não se faz, mas ela provocou né?", e por aí vai. Bem, o "mas" mata, né. Repito: se ela estivesse pelada, ninguém teria o direito de encostar a mão nela. Se ela estivesse pelada e dançando nua para provocar os alunos, nenhum aluno teria o direito de encostar a mão nela. Ou seja, qualquer "mas" é punir duplamente a vítima: uma vez pelo fato ocorrido, outra por responsabilizá-la, ainda que tangencialmente, pelo fato ocorrido.

Chegamos, socraticamente, ao problema: como proceder a análise da situação de forma que se entenda pq todas aquelas pessoas fizeram o que fizeram, sem engatar nenhum "mas" que responsabilize a vítima? É difícil, hein. Pensei que eram homens das cavernas. Mas não eram. Pensei que fossem da direita reacionária e religiosa. Também não eram. Enfim, pensei, pensei, e só obtive UMA resposta satisfatória: os homens que participaram daquilo são homossexuais enrustidos que gostariam de, eles próprios, estarem naquele vestidinho, mas, justamente por serem reprimidos, atacaram aquela menina que usava-o de consciência tranquila. E as mulheres são aquelas babacas que estão sempre se achando gordas demais, magras demais; aquelas que são "vítimas" dos produtos de beleza, que sempre acham que tem uma pelanca aqui, uma celulite ali, e, resumindo, têm vergonha do corpo que têm. Atacaram a feinha que não tava nem aí pro que achariam dela. Acharam um absurdo alguém ter amor próprio o suficiente para, mesmo que contra os padrões de beleza, simplesmente usou a roupa que a fez sentir-se bem. Nada mais.

Não deixa ser ser uma forma de lutar contra o sistema, né? E ela foi escorraçada por atacar, com sua atitude, o status quo. Tá, essa última parte é brincadeira.

Mas é isso. Pra mim, gente que se preocupa tanto com o que o outro faz a ponto de atacá-lo só pode estar com inveja. Eu sei, tô sendo simplista, mas, de novo: essa foi a ÚNICA resposta que atende os requisitos necessários: entender o ocorrido sem responsabilizar a vítima.

Isso dá uma bela tese de mestrado. Mal posso esperar pra ler a primeira... E aposto que vai ser algo sobre a ideologia no ato de usar o vestido, a luta contra o sistema, a revolução contra o status quo...

09 março 2009

Lei Seca II

Eu sei, faz tempo. Mas leiam o que eu escrevi quando aquela lei que iria salvar o mundo e resolver todos os problemas foi criada: "Lei seca".

Pois bem, não faz nem um ano. A mídia deixou de dar atenção ao caso, a fiscalização voltou ao que era antes, e, vejam só que curioso, as mortes aumentaram, os bares voltaram ao ritmo de antes, e quem não seguia a lei anterior não está seguindo a lei nova!

Uau, mas então não era a lei... Seria a fiscalização? Não sei, não sei... Talvez o Gilberto Dimenstein saiba. Talvez quem se apoiou nas estatísticas dizendo que o número de mortes caiu graças à nova lei saiba. Bom, agora que as estatísticas mostram o inverso, o que será que essas pessoas estão pensando? Em proibir o consumo, armazenamento, porte de bebida alcoólica em todo o território nacional? É, podiam fazer isso. Sem fiscalização, não ia mudar nada mesmo...

Afinal, vivemos no único país do mundo onde leis não servem pra ser fiscalizadas e respeitadas. Aqui lei é como a moda. Ás vezes pega... às vezes não pega...

20 outubro 2008

A culpa é mesmo do Exército

Ah, como não poderia deixar de ser, apareceu alguém que não leu o que eu escrevi, mas comentou como se eu tivesse escrito. É sobre o texto A culpa é do Exército. Vamos recapitular: eu afirmei que a culpa não era da INSTITUIÇÃO Exército. Eu afirmei que os soldados que entregaram os jovens não poderiam ser culpados de assassinar os jovens pq simplesmente não foram eles que fizeram isso, e sim os bandidos "donos" do morro. Eu afirmei que quando os bandidos matam, ninguém liga, como se fosse o natural, o normal. Vejam o comentário de alguém anônimo:

Peraí: se alguém joga uma pessoa na jaula de um leão e esse leão "por um acaso imprevisível da natureza (quem diria!?)" mata o dito cujo, a culpa é do leão?! Vc acha mesmo que esse pessoal de facção é um ser humano que nem vc? Vc acha que quem entregava "subversivo" à Gestapo não tinha culpa por eles acabarem morrendo de fome, frio ou câmara de gás? Vc acha que os soldados entregaram os rapazes aos outros bandidos porque? Para eles fazerem um piquenique? Para uma festa de reconciliação? Então quem paga um sicário não tem culpa pela morte de quem ele mandou matar? Não existe autor intelectual de crime... Vc vai acabar revolucionando o direito penal

Muito bem, vou responder:
1 - eu não falei de leões nem de outros animais irracionais. Se um animal mata uma pessoa, a culpa não é do animal, afinal o animal não sabe o que está fazendo. Já os bandidos sabem muito bem o que fazem.

2 - Definitivamente eu acho que qualquer "pessoal" são, sim, seres humanos. Se não fossem, seria mais simples: era só exterminá-los, como fazemos com ratos ou baratas. Ai, ai, depois eu sou sempre o radinal, o reacionário.

3 - Quem entregava os subversivos à Gestapo tinha culpa de...entregarem os subversivos à Gestapo. Você acha que o Getúlio Vargas é um assassino? Por mais que eu não goste dele, não acho que ele tenha sido o culpado pela morte de Olga Benário. O culpado pela morte de quem morria pelas mãos da Gestapo era a própria.

4 - Eu não acho nada. Eu acho que eles (os soldados, não o Exército) são, sim, culpados por não terem cumprido sua função constitucional e, sobretudo, por manterem contatos com bandidos. Mas foram eles que mataram? Não. O que eles fizeram estava de acordo com as regras da instituição? Não. Então a culpa da morte não é deles, e sim dos bandidos. Muito menos culpa tem o Exército.

5 - Autor intelectual existe sim. Mas os soldados não tinham poder sobre os bandidos. Em outras palavras, eles não mandavam nos bandidos, os bandidos não estavam a mando dos soldados, portanto não cabe o argumento de autor intelectual. Mas eles têm uma culpa sim, como eu já disse. Já a instituição Exército não.

6 - Não, senhor anônimo, não vou revolucionar o direito penal. Pelo contrário, estou é sendo conservador, estou apenas lendo o que está escrito na lei. Diferente de você, que leu o que NÃO estava escrito no meu texto. Aliás, você sequer entendeu o ocorrido, já que você fez comparações de leões (você sim estaria revolucionando o direito penal, considerando que os bandidos são como leões, cuja natureza é matar, portanto devemos achar isso normal), de mandantes etc. E o único objetivo do meu texto foi dizer que a Instituição Exército não teve a menor culpa nisso. Nem direta, nem indireta...

Mas esperar o quê? Veja nosso presidente...

11 julho 2008

Lei seca

De Gilberto Dimenstein, da Folha:
"Não sou moralista. Gosto de beber e, reconheço, aprecio aquela sensação de leveza que provoca uma dose a mais. Mas não apoiar essa lei é uma irresponsabilidade. Há tempos precisávamos de algo mais duro contra a matança no trânsito --e os comunicadores fazem um julgamento quando sustentam o apelido de lei seca."

Duas questões:
1 - Quem causava a matança no trânsito respeitava a lei que existia antes dessa?
2 - Se não respeitava aquela, pq respeitaria essa?

Aí algum imbecil fala: "ah, as estatísticas já estão mostrando que a lei está funcionando e as mortes estão diminuindo." É? A única variável que mudou foi a lei? Não houve um aumento incrível no número de blitze? Hm. Pois a resposta para aquelas duas questões é exatamente essa: aquele que causava a matança com a lei anterior vai respeitar essa pq HÁ FISCALIZAÇÃO. Quando o show acabar, vamos ver se tudo não vai voltar ao normal...

A lei anterior já era bem rigorosa - muito mais rigorosa que a lei norte-americana, por exemplo. Será que não faltava somente a fiscalização? É clichê, mas não custa lembrar: o problema não é a falta de leis, e sim o não cumprimento das que já existem.

19 junho 2008

A culpa é do Exército

Ai, ai, mas esse Brasilzão véio de guerra surpreende mesmo, hein! Vamos lá: 3 morreram pq uns soldados os entregaram a uns bandidos. Quem matou? Os bandidos. O que os soldados fizeram foi certo? Claro que não. O princípio, aliás, já é errado: soldados terem contato com criminosos. Claro que eles têm que ser presos. Mas não por homicídio, por um motivo simples e objetivo: não foram eles quem mataram os três. Foram os bandidos do morro.

De novo: o que eles fizeram foi certo? NÃO. Mas não posso deixar de me surpreender ao ver toda essa comoção nacional contra ... o Exército! A Instituição! NINGUÉM ficou indignado com os bandidos! Aliás, isso é tão normal que a gente lê por aí que tal facção é DONA de um morro com a maior naturalidade. Como se fosse normal que bandidos mais armados que o Exército dêem ou neguem acesso à este. Como se fosse normal a idéia de que bandidos matando, tudo bem, desde que eles sozinhos vão em busca das vítimas.

Quantos corpos mesmo foram encontrados em cemitérios clandestinos quando da busca do corpo do Tim Lopes? E todo mundo só ficou indignado pela morte dele. E todas as dezenas de mortos antes e depois dele? Agora todo mundo está indignado com a presença do Exército no morro, e não com o domínio dos bandidos? Agora a justiça manda o Exército sair do morro? Essa é boa. Pq deveriam sair? Qual é a justificativa? Sua presença está incomodando os bandidos, que ficarão mais sanguinários, é isso? É tipo uma política de redução de danos? É melhor deixar os bandidos em paz, assim eles só matam quando "for preciso"?

Que piada...

16 dezembro 2007

Quem são vocês?

Odeio auto-ajuda. Pra ser sincero, não gosto nem de quem gosta de auto-ajuda. Gosto menos ainda de quem usa a ciência, distorcendo-a, para "comprovar" preceitos de auto-ajuda. Pois é. Há algum tempo me disseram pra assistir o documentário Quem Somos Nós, que falava de física quântica, talz. Eu esperava algo do tipo daquela série de reportagens do Marcelo Gleiser no Fantástico, que era uma forma de simplificar a ciência para os mais leigos, mas sem tratá-los como idiotas, e muito menos usando má fé para fazer com que esses leigos sejam convertidos a alguma crença. Bom, é exatamente isso que este documentariozinho faz.

Em primeiro lugar, já vejo com alguma desconfiança quando documentários que pretendem apresentar especialistas não listam suas credenciais. Explicando melhor: credenciais não querem dizer nada. Quando eu estou debatendo com alguém, eu não ligo se o cara é um professor de Harvard ou um pedreiro. Eu ligo, sim, para o que está sendo dito, se é feito com lógica, etc. Mas eu sei que apresentar credenciais é praxe em documentários, justamente para que o espectador, que não vai DEBATER com o cara, saiba que ele é importante e saiba o que diz. Quando não se apresentam as credenciais, parece que as pessoas não são, digamos, as "mais especialistas" no assunto. Este documentário é exatamente isso.

Em segundo lugar, ele simplesmente distorce conceitos sobre física quântica, para que estes conceitos sejam aplicados à nossa vida! O que é isso, minha gente, distorcer as coisas e apresentar isso como se fosse ciência? Aliás, outra coisa, o negócio já começa de uma forma estúpida. É um filminho que fala sobre a história do embate ciência x religião. Todo aquele blábláblá acaba num resultado interessante, vejam vocês: a ciência PRECISA da religião, e vice-versa! Interessante, não? Ridículo. Isso é apresentado como se fosse uma verdade e ponto! Já fiquei meio assim.

O golpe mortal foi quando, ao explicar o conceito de dualidade partícula-onda (um elétron se comporta como onda, mas, ao ser observado, se comporta como partícula). Ele diz que o observador interfere na experiência. Neste caso, é verdade, pois para observar qualquer coisa, é necessário jogar algumas partículas nessa coisa. No caso de coisas grandes, as partículas de luz não fazem muita diferença. Ou os raios-x, ou ondas eletromagnéticas. Nada disso importa muito no mundo macro. MAS, no mundo subatômico, jogar uma partícula contra o que está sendo observado implica em alterações. Analogia: jogar uma bola de golfe num prédio não vai fazer o prédio mudar de lugar, não vai fazer o prédio se movimentar um único milímetro. Mas jogar uma bola de golfe em outra bola de golfe vai fazer uma diferença absurda, não é?

Pois é, essa analogia eles não fazem. Eles só vão até a parte de que o simples observar altera a experiência, o que é verdade. E aí, usam uma desonestidade que poucas vezes eu vi em minha vida: trazem este mesmo modelo ao nosso mundo! Dizem que, em nossas vidas, nós alteramos o ambiente em que estamos com o nosso pensamento. Tipo, pensar positivo traz coisas boas, e pensar negativo traz coisas ruins (daí pra frente, o negócio só gira em torno disso: pense coisas boas, e coisas boas acontecerão). Usam a ciência para fazer com que os leigos achem que a ciência VALIDA essas crenças! MENTEM. ILUDEM.

Fora uma das coisas mais engraçadas, que simplesmente deixa evidente que se trata de crença: tem uma hora que um cara diz, com outras palavras, que é idiotice acreditar que existe um deus que fica vigiando as pessoas, e pune quando se sente ofendido, que quem acredita nisso está errado. O certo é acreditar em pensamentos positivos. Eu quase ri nessa hora. Me fala se isso não parece um crente tentando converter alguém... Pior: em nome da ciência!

Poucas vezes eu não consegui assistir um filme ou um documentário até o fim. Eu sou bem paciente. Mesmo quando o negócio é ruim, como SuperSize Me (aquele documentário sobre o McDonalds, onde o cara come em um mês o que uma pessoa normal comeria em 8 anos), eu assisto até o fim. Esse não deu. Sério, eu fico nervoso vendo essas coisas. O problema não é nem falar da sua crença. Novamente, é usar a ciência para dizer a quem não conhece de ciência que a ciência comprova que sua crença é verdadeira!

Quem Somos Nós é ridículo. Não é ciência. Pensamentos positivos são tão funcionais quanto astrologia. Quer assistir, assista. Mas não faça como tantas outras pessoas que acreditam naquilo como se fosse ciência, e depois se metem a discutir teorias de física quântica aplicada ao relacionamento humano! Por favor...

27 novembro 2007

Preconceito é o dos outros

Interessante a entrevista com o "educador" mineiro Tião Rocha, que vê o ensino convencional como um cadáver. Concordo com ele em alguns pontos. Só que ele é como o Alex Castro disse uma vez sobre a esquerda: é boa para identificar os problemas, mas uma negação na hora de propor soluções.

Primeiro que o rapaz (nem tanto, tem 59 anos) diz que a escola convencional é, veja só: branca, cristã, elitista, excludente, seletiva, conformada. Uma grande bobagem. Em primeiro lugar, esse "branca" é puro preconceito. Qualifique algo negativo como "negro" e você vai ver a reação das esquerdas militantes furiosas. Ah, mas preconceito ao contrário pode.

Em segundo lugar, esse "cristã" segue o mesmo esquema. Como todos sabem, eu acho religiões ridículas. Mas uma certamente não é melhor do que outra. Talvez tenha escapado ao educador que 92% da população brasileira é cristã, 80% católica e talvez por este pequeno detalhe a moral e os bons costumes são, adivinhem..., cristãos! Não é só a escola que é cristã. TUDO é cristão no Brasil.

Seguindo, os termos "excludente" e "seletiva" são complementares. Não dá pra ser seletivo sem ser excludente. Ser seletivo É ser excludente. E claro que a escola é assim, como o mercado de trabalho também é, como a família também é, como, enfim, qualquer coisa é assim. A humanidade é assim. E isso não é só no Brasil. Qualquer país possui critérios que selecionem os melhores. Em qualquer país, a força de trabalho é classe média, ensino médio, enfim, é a imensa maioria da população. Os melhores são, vejam só, selecionados. Os não-melhores são excluídos das "regalias" dos melhores, como fazer um mestrado no exterior pago pelo governo, por exemplo.

Não entendi pq a escola é elitista. É elitista por ser seletiva e excludente (elite significa a nata, os melhores). Se for neste sentido, então o termo é repetitivo. "Seletivo" já explica "elitista". Agora, se a intenção do educador é dizer que a escola vangloria a riqueza, bom, aí tudo bem, é um adjetivo diferente de "seletivo". Porém, qual é exatamente o problema nisso? Prefiro gente que vanglorie a riqueza e faça por merecer do que gente conformista.

O que nos leva ao último adjetivo: conformada. Esse ele explicou o que quis dizer:
"A escola não permite inovação. Ela é reprodutora da mesmice. (...) O conteúdo da escola está pronto e acabado. Os meninos que vão entrar na escola no ano que vem, independentemente de quem sejam, aprenderão as mesmas coisas, do mesmo jeito. Aprendem o que alguém determinou que tem que ser aprendido."

Concordo em partes. Poucas partes. Não há muito espaço pra mudar o que vai se aprender em matemática, português, história, geografia, etc. Como se inova a História? Como se inova a Matemática? A não ser que alguém descubra alguma fórmula nova, ou um sítio arqueológico identifique uma nova informação, não há o que mudar (a não ser para os esquerdistas, que tentam reescrever a história, certo?). O que quer dizer com isso é que eu concordo que a escola precisa mudar o foco na hora de ensinar. Ou seja, eu acho que é preciso mudar A FORMA COMO as coisas são ensinadas. Já o educador acha que é preciso mudar AS COISAS que são ensinadas.

E, para finalizar, vejamos a explicação a respeito daquele adjetivo racista "branca":
"Por exemplo, eu nunca tive aula sobre os reis do Congo, mas tinha aula sobre todos os Bourbons, reis europeus."

Entenderam? Ele nunca teve aula sobre os reis do Congo, que mudaram o rumo da História mundial! Já os Bourbons, que não tiveram importância nenhuma na História, sobre esses ele aprendeu. Sabem pq? Pq os reis do Congo eram negros e os Bourbon brancos. Claro! E ele ainda quer mudar o que se aprende...

É óbvio e claro o viés esquerdista, exatamente aquele tipo que desestimula a competição, como se ela fosse má. É esse o tipo de gente que quer reescrever a história, dizendo que Mao era adorado, etc. É por esse tipo de gente, que acha que aprender o que é um hectômetro é algo inútil, que estamos no terceiro mundo, num lugar que apenas consome tecnologia, incapaz de produzir. Afinal, para produzir tecnologia, é necessário saber o que o "hecto" do "hectômetro" significa. Já para consumir, não precisa saber nada. Ou melhor, saber sobre os reis do Congo já é mais que suficiente!

23 novembro 2007

O Refúgio do Canalha - Parte 2

Continuando...
O cúmulo da canalhice, porém, veio da escola de samba Vai Vai, e aí eu não pude me conter. Primeiro,
leiam isto, e sintam-se à vontade para procurar outras referências. Não acreditem em mim. Vejam que coisa engraçada. Uma pessoa que não aguenta o barulho demonstra as contravenções da escola de samba. Vejam que, num primeiro momento, o "dono" da escola tenta argumentar: disse que está há 77 anos no bairro, que o lugar deles é lá, enfim, faz todo um showzinho emocional-nostálgico. Obviamente, o argumento é pífio, já demonstrado pelo autor daquele post.

Comprovado que a escola desrespeita os moradores com um volume acima do permitido por lei, e desarmado do argumento da antiguidade, o que faz o acusado? Apela para seu último refúgio: contra-acusa o seu acusador, para tentar desmerecê-lo, já que é incapaz de desmerecer seus argumentos. Talvez o cidadão acusador seja um bom cidadão, paga seus impostos, etc, e portanto o acusado não tem como desmerecer o sujeito de outra forma, ou talvez o acusado seja preguiçoso para verificar o passado do acusador e desmerecê-lo de uma forma mais "honesta". Tanto faz, o que importa é que o acusador passou a ser acusado de racismo!

Reparem que o tal da Vai Vai nem tenta argumentar. Com a simplicidade de quem diz que o céu é azul, acusa uma pessoa de cometer crime de racismo! Sequer argumenta COMO e QUANDO esse "crime" foi cometido. Apenas acusa. Não tinha para onde correr, não tinha argumentos. Correu para o último refúgio! É um canalha! Será que ele responderá pela calúnia? Ou será que um negro pode chamar alguém de racista à vontade sem ser punido? Enfim, a Constituição, que diz que todos são iguais perante a lei, é ou não é a base da democracia brasileira?

O engraçado é que, voltando aos militantes e passando por esse senhor canalha da escola de samba, pessoas, na maioria das vezes acreditam de boa-fé, usadas como massa de manobra, que são cidadãos de segunda classe por causa da cor da pele. E aí entra a militância a exigir uma reparação, fazendo com que o resto, os que têm a pele de outra cor, esses sejam os cidadãos de segunda classe em coisas objetivas, como um vestibular, por exemplo.

Vários autores, dentre eles cito Ali Kamel, já demonstraram que o preconceito que existe no Brasil é contra pobres, preconceito que acontece dentro das próprias classes baixas, não contra negros.

E universidade não é lugar de se fazer "justiça social". É lugar onde a excelência acadêmica faz o país avançar. Os melhores, independentemente da cor da pele, devem fazer parte desta excelência.

21 novembro 2007

O Refúgio do Canalha - Parte 1

Segundo Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio do canalha. Millôr Fernandes complementa: A pátria é o primeiro refúgio do canalha. Até concordava, talvez com alguma reprovação, até pq nem tinha parado pra pensar muito nisso. Bom, ainda não pensei, mas já descobri que definitivamente o patriotismo pode ser um refúgio dos canalhas, mas não é o último. O racismo está na moda. E às vezes é logo o primeiro!

Não, não é o, digamos, racismo ativo. É a simples acusação. Acusar o oponente de ser racista praticamente o desqualifica imediatamente, a despeito dos argumentos da discussão. Eu já havia visto tal coisa em qualquer tentativa de implantação de cotas em universidades. É assim: a universidade vai bem, tudo numa boa, negros e brancos convivendo harmoniosamente, as pessoas entram sendo capazes de passar no vestibular, independentemente da cor da pele, coisa e tal. Aí um grupo organizado e militante, normalmente vinculado a algum partido político de pseudo-esquerda (PT, PSTU, PCB, PC do B, etc), resolve lutar pelos diretos dos negros de entrar naquela universidade (como se houvesse uma universidade em que negros não entram!).

Aí, mais que misteriosamente, donde outrora havia harmonia surge a discórdia entre "raças". Misteriosamente pq nunca ninguém descobre de onde vieram pichações com frases incitando essa discórdia. De repente, parece que estamos em Berlim, 1937, e onde havia um muro limpo num dia, no outro há uma frase mandando os negros para a cozinha, essas coisas. Parece até que existe uma sucursal da KKK dentro de cada universidade, e cada célula permanece inativa até que o BEM aparece, e o MAL resolve mostrar a "cara". Aspas, pq, como eu disse, nunca descobrem os autores das pichações, que só servem mesmo para que aqueles militantes que já citei digam: "vejam só como a sociedade é racista", e por aí vai.

Claro que pode mesmo existir grupos organizados que militam contra os negros e acham que o lugar deles é na cozinha, etc. Esses grupos devem ser banidos e seus integrantes devem ser expostos ao ridículo (e, de repente, à forca, quem sabe...) em praça pública. Mas não é estranho que, enquanto o ingresso à faculdade fazia-se exclusivamente pela capacidade do indivíduo e, portanto, negros já faziam parte do corpo discente, esses tais grupos ficavam quietos? Ora, se eles são contra o ingresso de negros, e negros ingressam, eles ficavam quietos? Qual a lógica? Eles aceitam um pouco de negros, mas muitos, aí não, aí o lugar deles é na cozinha? É estranho. Mas começa a ficar claro quando sabemos o quão sujo partidos de esquerda podem jogar, não é mesmo?

Ok, continuando. Vocês devem se lembrar daquela briga entre estudantes, alguns africanos, na UnB, não se lembram? Se não se lembram, procurem no Google. A coisa era simples: estudantes que faziam muita bagunça atrapalhavam estudantes que faziam menos bagunça, e deu briga. Até aqui, nada demais, isso acontece em todo lugar. Eu mesmo estou sendo ameaçado (juntamente com meus colegas) de banimento no prédio onde minha república fica. Um dos meus colegas é negro. Se fôssemos mais de um, a coisa poderia ser diferente, como foi na UnB. A briga lá virou uma questão ideológica. Era racismo. Os africanos estavam sofrendo com o preconceito, estavam sendo agredidos por racistas, etc. Ah, nem vou falar muito disso, é ridículo demais. Apenas encerrando, adivinhem se os movimentos de afirmação, vinculados ao partidos de esquerda, não foram lá "adotar" esses "oprimidos"...

Já são dois exemplos. Vi essas duas situações (no caso das cotas, mais de uma vez, no caso das brigas, vi na UnB, e aqui pertinho, em Sto André, mas aí não houve a dimensão nacional do caso de Brasília), e fiquei na minha, não achando que valia a pena escrever sobre isso. Até então, não havia nada além da canalhice que já envolve o partidarismo (reiterando, essas militâncias são partidárias de gente que não tem lá muito caráter ou escrúpulo, como desde mensalões a crimes contra a humanidade provam aí pelo século XX até hoje).

continua...

12 novembro 2007

Tropa de Elite - Parte 3

A esquerdização das universidades - parte 2
Vamos colocar da seguinte forma: a sociedade tem duas margens. Os que efetivamente não seguem o establishment , os bandidos, os que ferem as liberdades de outros cidadãos, e os que seguem, mas desejam mudá-lo, criar uma nova ordem. Esse segundo tipo são os teóricos. E onde eles estão? Pois é, nas universidades. Os jovens são sempre contra o establishment. Os velhos já se acostumaram ao sistema, os jovens ainda têm esse ímpeto que revoluciona. Por outro lado, os velhos têm a experiência, e os jovens não querem perder tempo pensando. Isso é bom, pois, no geral, são os jovens que trazem mudanças, e a maioria das mudanças são boas.

O problema é unir esse ímpeto juvenil com a idiotice de alguns teóricos. O ideal seria a experiência dos mais velhos conter o ímpeto juvenil, e o ímpeto juvenil movimentar a estagnação dos mais velhos, o que levaria tudo a um equilíbrio positivo. Mas não, o Brasil é traumatizado, a direita é má, vamos dar ouvidos a tudo que a esquerda diz, eles é que são bonzinhos, etc, e, depois da redemocratização, quem era de direita simplesmente não tinha condições de continuar lecionando. Em 1995, quando cheguei à quinta série, todos os meus professores de geografia e história já eram de esquerda, e contavam a história deturpada, exaltando os valores da revolução soviética, colocando tudo como uma luta de classes, como se a sociedade fosse dividida em preta e branca, sem tons de cinza.

Ora, sabemos, por Gramsci, como deve ser a revolução sem violência: pela educação. Reescrevendo a história. E hoje a primeira geração verdadeiramente pós-redemocratização chega à universidade. No geral, é uma geração apática, que aguarda um super herói (resultado da esquerdização, que prometia mundos e fundos em sistemas diferentes, essas coisas). As pessoas clamam por mudança, mesmo sem saber exatamente o que deve mudar, o que está errado, qual é o caminho certo, se há um caminho certo. Lula foi eleito prometendo mudar - não dizia o que. Assim é fácil.

Essa geração, que chega à universidade, não tem oponentes. Não tem um sistema que cerceia sua liberdade de expressão. Não tem como mostrar aos filhos foto brigando com a polícia, mostrando como é revolucionário. É uma juventude, no geral, frustrada, por ter acreditado tanto em professores que pregavam o caminho para a terra prometida. Eles precisam de um oprimido! Mas não há mais opressor, o que fazer? Criar um: o pobre. O oprimido, que antes era o que queria liberdade de expressão, agora é simplesmente o pobre. O pobre pode ser bandido, mas, nesse caso, é justiça social. As leis nunca valeram para a esquerda e seus oprimidos, e continuam não valendo, como vimos no episódio do assalto de Luciano Huck.

O filme Tropa de Elite simplesmente mostrou isso: jovens que precisam de um opressor para chamar de seu, e escolhem a polícia para ser esse opressor mau. Jovens que vêem a polícia como inimigos. Quando alguém pega um fuzil, atira contra policiais, e acabam matando alguém que não tem nada a ver, a culpa recai sobre a polícia, e fazem passeatas contra a violência. Nunca contra o traficante. A maioria das vezes contra a polícia. No máximo, quando é claramente evidente que a polícia não teve nada a ver (caso de João Hélio), a culpa recai sobre...a sociedade. Nunca sobre os que cometeram o crime, pois esses são os neo-oprimidos, os coitadinhos que não tiveram outra opção a não ser pegar uma arma e vender drogas, ou roubar quem não teve outra opção a não ser trabalhar e pagar impostos (pois sua moral não permitiu roubar nem vender drogas).

Na verdade, parece que é natural do brasileiro ser condescente com tudo, aceitar tudo, como se, no fim, cada um de nós sempre tem uma culpa a carregar. Como se eu fosse obrigado a sentir culpa por ser um privilegiado pelas coisas que eu possuo, como se isso não fosse graças a uma série de fatores que somente aconteceram graças exclusivamente a mim mesmo, e outros fatores, menores, que dependem até da sorte. Quando eu era mais novo, ouvia que a diferença de colonização entre nós e os americanos é que nos destinou ao terceiro mundo. Depois vim a saber que, em 1900, tanto na questão econônica quanto na militar, Brasil e EUA estavam em paridade. O que nos fez perder, e o que os fez vencer? Talvez a ética protestante e o espírito do capitalismo, e a culpa infinita da doutrina cristã ajudem a explicar muita coisa. Talvez...

08 novembro 2007

Tropa de Elite - Parte 2

A esquerdização da Universidade - parte 1
O texto ficou longo e em alguns momentos parece tratar de dois assuntos ao mesmo tempo. Bom, é isso mesmo, ele faz um apanhado geral, por isso, por vezes, parece não ter conexões, mas tem. Infelizmente não acho que eu consiga ser mais específico, mais detalhista, mais claro que isso sem escrever um livro, ou uma tese. Mas isso é um blog! Ah, nem reli, tá do jeito que escrevi!

O fim da ditadura militar brasileira começa a dar frutos ideológicos agora. Já se vão vinte e poucos anos da redemocratização. Vamos fazer um pequeno passeio por esse tempo e analisar a moral e os bons costumes brasileiros. Falo isso por ter passado por isso. Eu nasci em 1983, tinha 6 anos quando Collor foi eleito, o primeiro presidente eleito no voto direto. Passei pelos anos 90 compreendendo o mundo primeiro como uma criança, apenas observando, e foi nos anos 90 que comecei a te idéias próprias.

Depois de adulto, pude rever os acontecimentos com outros olhos, e comparar as coisas que vivi com o que de fato aconteceu. Isso é sensacional, pois eu SEI o que aconteceu, não apenas li num livro. A minha geração PASSOU por isso sem ter idéias pré concebidas. As gerações anteriores tinham lado: eram comunistas, ou eram liberais, enfim, e a geração que se segue apenas lerá em livros que, como sabemos, valoriza mais a esquerda (e mente muito pra isso) do que os fatos propriamente ditos.

Depois da redemocratização, o Brasil viveu uma festa. É fácil ver isso assistindo às aberturas de novelas dos anos 90. Imagine uma mulher nua em horário nobre. Pois é, hoje é impensável, a Globo já leva porrada por mostrar mulheres seminuas. Se mostrasse a abertura de Pedra sobre Pedra, o programa seria obrigado a passar depois das 23h. Em 1992, era às 20h em ponto. Falo da TV por ser um retrato do que a sociedade tolera. Existia um medo da volta dos militares, do fim da liberdade de expressão.

Pois bem, a direita estava estigmatizada, com toda a razão, e a esquerda dominou a cena. Não por ser melhor do que a direita, mas simplesmente por ter sido sua maior opositora. Se a esquerda tivesse vencido (falamos de MR-8, José Dirceu, a base do PT), teríamos uma outra ditadura. Claro que a queda da União Soviética, coincidentemente no mesmo período, teve um importante efeito: transformou muitos radicais em moderados. Pois bem, onde ficaram os radicais? À margem da sociedade.

continua

21 outubro 2007

Tropa de Elite - Parte 1

A violência policial
Bom, vou começar falando sobre uma coisa comum, principalmente entre os jovens, que é a idéia de que a polícia é inimiga do cidadão. Não é. O policial é uma pessoa como qualquer outra, mas em sua profissão corre um risco muito maior do que em qualquer outra. Sendo uma pessoa como qualquer outra, ela também age por conceitos e pré conceitos. Todos nós temos isso, e é isso que nos faz e faz qualquer outro animal sobreviver: uma idéia pré concebida sobre algo. Foi graças ao preconceito que chegamos até aqui.

Antes que pareça que estou defendendo um crime, melhor fazer uma explicaçãozinha. Conceito é uma idéia que uma pessoa tem sobre algo. Preconceito, portanto, é uma idéia que a pessoa tem sobre algo ANTES de conhecer esse algo. A palavra é conhecida apenas pelo aspecto negativo, mas o preconceito pode ser positivo tbm. Digo, eu posso falar BEM de algo que eu não conheço. Isso também é preconceito. Eu posso sentir medo de algo que não conheço, e manter-me afastado dessa coisa. Ou seja, preconceito não necessariamente é uma coisa ruim. É auto-proteção. É desse preconceito que estou falando, não de discriminação.

Voltando ao policial. Ele conhece as estatísticas. Sabe que é numa favela que estão os criminosos mais violentos. A chance d'ele levar um tiro na Av. Paulista é mínima; nula se comparada à chance de levar um tiro subindo uma favela. Onde ele vai ficar mais tenso? Ora, novamente: o policial é uma pessoa como qualquer outra! Seu trabalho é servir e proteger a população. Os inimigos da população estão no meio da população. Na testa do bandido não está escrito BANDIDO.

Pq o policial trata bem as pessoas na Av. Paulista e não em, sei lá, Paraisópolis? Pq uma pessoa tensa fica na defensiva! A chance dele morrer em Paraisópolis é infinitamente maior do que na Av. Paulista, onde ele consegue ficar mais relaxado. Podemos culpá-lo por isso? Por esse preconceito, que é o que salva a vida dele? Podemos culpá-lo por ser humano?

É fácil culpar qualquer um por qualquer coisa sem um padrão. Se você está indo trabalhar e a polícia está fazendo uma blitz, é claro que você vai ficar puto, eles estão causando trânsito, estão atrapalhando, etc. Claro, pensando exclusivamente em si, você está sendo prejudicado. Mas a polícia não está fazendo isso para pegar bandido? Se um desses bandidos, que iria passar se a polícia não fizesse a blitz, roubasse seu carro, você iria culpar quem por isso? A polícia, que não pega bandido.

A polícia é inimiga do bandido, que é inimigo do cidadão, da sociedade. Particularmente no filme, a polícia é violenta com os bandidos, para proteger a população. No livro que inspirou o filme, inclusive, um dos ex-integrantes do BOPE deixa claro coisas do tipo: se vc vai evocar os direitos humanos para situações como as descritas, melhor parar de ler o livro. Ora, é claro que a polícia é violenta quando não sabe se está ou não ameaçada, e mais violenta ainda quando sabe que ESTÁ.

O correto seria o criminoso ser preso, julgado, e condenado. Se ele quisesse, poderia delatar seus companheiros. Acho que não ia querer. Depois de dois ou três anos, estaria solto, rindo do policial que o prendeu, das vítimas de seus crimes, e voltaria exatamente para o lugar de onde veio. O problema de tudo isso é que, numa guerra, não há tempo para esse tipo de coisa. Isso serve para o estado de direito, não para o estado de guerra.

Há um problema nessa força excessiva. Os bandidos, sabendo que vão morrer, lutam cada vez mais. Se antes, encurralado, ele se entregava sem resistência, agora vai dar tiro de fuzil pra tudo que é lado pra tentar, já que a morte é inevitável, levar alguém com ele. E numa dessas vai bandido, policial, e crianças que levam balas perdidas.

Também existe um problema em ver normalidade na excessiva força policial. É que esse é o primeiro passo rumo ao totalitarismo e ao estado policial. É muito bom ver a polícia fazendo isso com os outros. Quando ela começa a nos atingir, nos sentimos como o cara que chegou atrasado no trabalho por causa da blitz. Eu sinto um pouco de medo quando concordo de forma tão veemente com alguma coisa que envolva força e falta de liberdade. Mas fico mais sossegado por lembrar que isso é um estado de guerra, e, espero, seja passageiro, e possamos voltar ao estado de direito, onde as leis serão seguidas. Será que estarei vivo até ver isso? Será que a guerra é o melhor caminho para a paz?

Tropa de Elite - Prólogo

Acabei de assistir Tropa de Elite. Uau, que filmaço! Tenho muito o que falar:
- o papel do usuário na guerra contra as drogas
- o estilo "jeitinho brasileiro" institucionalizado
- a esquerdização (ou burrização) de universidades
- a violência policial

Os textos ficarão grandes, mas, acredito eu, valerão a pena. Ao menos, me vale a pena escrevê-los. No próximo post vai a primeira parte, sobre a força policial.

09 outubro 2007

O Assassinato e a Soberania

Primeiro, dêem uma lida aqui. Depois aqui, e vejam a diferença entre assassinato e execução.

Não contente com o absurdo de se propor uma homenagem de um estado democrático a um assassino terrorista, o senador ainda dispara, a respeito da execução de Che, acusando os EUA:
"Tratava-se de cumprir uma missão planejada, ao arrepio da soberania boliviana, por uma potência intolerante obcecada pela idéia de derrotar a revolução cubana e de impor aos países latino-americanos regimes políticos absolutamente servis aos seus interesses estratégicos."

Pausa.: depois reclamam que o país não vai pra frente... Continuando.

Que coisa: a soberania boliviana foi arrepiada pq, vejam, o governo da Bolívia e o exército regular e constituído da Bolívia, com o auxílio, por meio de acordo de cooperação, do governo dos EUA e sua agência de inteligência, executaram um terrorista estrangeiro que entrou na Bolívia exatamente para acabar com o governo democrático e soberano da Bolívia.

Entenderam? Por outro ângulo, agora: Che Guevara, um argentino terrorista e guerrilheiro, entra na Bolívia para acabar com o estado boliviano e instaurar um novo estado ditatorial. ISSO não ataca a soberania da Bolívia. Agora, o governo boliviano e o exército boliviano, ao pedirem ajuda aos EUA para capturar o terrorista que quer acabar com o estado boliviano, aí sim estão arrepiando a soberania boliviana.

Uma última questão: será que o povo cubano está feliz com o regime político que tem, ou este é uma imposição na base da força bruta, que faz o povo absolutamente servil ao regime e aos interesses estratégicos do regime e do seu líder?

29 setembro 2007

Pobres indiozinhos...

Nunca havia pedido comentários de leitores em NENHUM dos meus posts. Para este eu vou pedir. Por favor, me ajudem a entender isso...

Sou só eu, ou alguém mais acha que esse negócio de reserva indígena é igualzinho um zoológico, onde tratam um ser humano como um bicho a ser pesquisado, visto, admirado, etc, no mais próximo de seu habitát natural? Como se houvesse habitát natural para seres humanos...

Tipo, o cara é confinado numa aldeia no meio de uma floresta, privam-no de água quente, comida congelada, carros, roupas, remédios, cinema, Lost, Heroes, e algumas pessoas vem dizer que isso é pra, de alguma forma, reparar um erro do passado?? Como assim? Pq os portugueses vieram aqui e tomaram a porra toda, vamos selecionar alguns descendentes dos que sofreram no passado para continuarem sofrendo agora, sem o conforto e a qualidade de vida que a nossa sociedade moderna pode dar, é isso?

E pior: quem disse que foi ruim os portugueses terem tomado a porra toda? Ué, eles usaram a força, uma forma LEGÍTIMA de se tomar territórios. Caso alguém tenha esquecido, isso acontece desde sempre. Inclusive, se é pra ser bem purista, é preciso lembrar que os humanos vêm tomando territórios de outros grupos (tanto da mesma espécie quanto de outra) desde que saiu da África, e nem por isso alguém pensa em criar um clone de neandertais para devolvê-los a Europa, pensa? Ou, melhor ainda: alguém acha que o estado de Israel deveria deixar de existir, pq simplesmente os hebreus tomaram aquela porra toda, à força (mesmo expediente dos portugueses, portanto), dos cananeus e filisteus? Eu sei quem pensa assim. O presidente do Irã, aquele que todos chamam de louco.

Acho que esse papo de 'preservar' a cultura no rabo dos outros é fácil né! É fácil fazer o índio ir lá dormir numa oca enquanto se dorme numa caminha confortável com ar-condicionado no calor e aquecedor no frio, e ainda convencê-lo de que isso é pra o bem dele! Galera, hellooooo?, as culturas SEMPRE morrem em detrimento de uma mais moderna, mais nova, e NA QUAL EXISTA MAIORES FACILIDADES. Não foi assim com o cristianismo, tomando a porra toda do paganismo? Não foi assim com Roma tomando metade da Europa e, graças a isso, agora nós todos somos latinos e falamos línguas latinas?

Sei lá, é como eu disse no começo: pra mim, parece que estamos falando de bichos no zoológico. Vamos lá ver a cultura dos índios no seu habitát natural? Não parece um dos diálogos de Admirável Mundo Novo? Bom, é pq É um diálogo de Admirável Mundo Novo. Aquele povão bonito, europeu e sexualmente livre gostava de dar uma passadinha na América pra ver aqueles selvagens e sua cultura ignorante, cheia de deuses e crenças e sexualmente reprimido.

Por favor, DEIXEM comentários! Eu gostaria MESMO de entender NO QUE se está ajudando o índio deixando-o à margem da sociedade em nome de manter uma cultura que NEM O ÍNDIO quer, pois, se quisesse, mantê-la-ia sem a ajuda do abominável homem branco! Se é preciso uma força-tarefa para esse tipo de coisa, é pq a cultura, sozinha, não sobreviveria. Então, o que temos é uma cultura artificial. Me ajudem, vai...