08 maio 2011

Há 17 anos

Escrevi o texto que segue há 7 anos. Ele falava sobre a minha vida de então, relembrando o passado. O nome do texto é "Há 10 anos". Quando tiver um tempo, vou escrever sua continuação.

E estou andando pela casa em que cresci.
E, no início, não quero nada, só pegar meu violão, e ir embora p/ minha casa.
Então acho alguns cadernos empoeirados. São cadernos do meu primário. De 1990 a 1993. E então lembranças começam a tomar meu pensamento, enquanto passo os olhos pelas folhas empoeiradas, preenchidas por letra infantil, com problemas matemáticos, ou recados.
Relembro dos amigos que nunca mais vi, do primeiro álbum de figurinhas completo, que perdi na mudança de casa, das comemorações, ou feiras de ciências com explicações agora simples, mas que eram complicadíssimas naquele momento.
Valores de mensalidades expressos em milhões de cruzeiros, depois milhares de cruzeiros reais.
Até chegar no recado sobre o luto pela morte do cantor Jessé, pai do aluno David, estudante da minha sala. Na verdade, David foi meu primeiro "melhor amigo". Mas após a morte de seu pai, mudou de escola, e nunca mais tive notícia. Suspeito que tenha sido a primeira grande decepção que tive, pelo menos, que lembro.
Então me vem o pensamento sobre o quanto seria bom reunir toda uma classe de mais de 10 anos atrás. Não consigo imaginar a gama de caminhos que cada um pôde escolher p/ seguir. Lembrei também do meu primeiro amor, que também foi meu primeiro fora. Um bilhetinho pedindo a menina (Thaís) em namoro, e a resposta que eu teria a resposta somente no dia seguinte. E a resposta foi "não". Graças a uma amiga da Thaís, que não gostava de mim. Acho graça de como as mulheres começam a fazer esse tipo de coligação tão cedo. Por onde será que anda a Thaís?
E me ocorre que estou com medo. Nunca notei como o tempo passa depressa. Sempre que se falava em "10 anos atrás", eu não tinha a dimensão correta desse tempo, pois não me lembrava da época. Quando tinha 18 anos, 10 anos antes eu teria 8, e não lembraria nada que acontecera naquela época. Agora não. Eu lembro das coisas que me aconteceram há 10 anos.
Tudo vêm à mente com muita facilidade, desde a reforma da casa, até a vinda do Rex, o cachorro que ainda está vivo, mas infelizmente, está velho, e não dura muito mais. Mais uma coisa que só agora vim perceber. Fazia uns 3 ou 4 anos que não via o Rex. Nunca me ocorreu que ele ficaria velho e morreria. Nas minhas lembranças não lembro de nenhum momento que pensei sobre isso, e brinquei "só mais 5 minutos" com ele. E agora não tenho tanto tempo assim, e ele não consegue mais brincar como antes. Não tem o mesmo fôlego p/ pular e correr. E é assim que estou me vendo, sentado na escada, olhando o Rex, e o prédio que agora esconde a bela vista que tinha das montanhas, e que tapa o sol que mantinha as árvores do meu quintal vivas, chorando feito uma criança que perdeu seu brinquedo. Mais um minuto próximo do fim. No caso, o brinquedo que perdi foi o tempo. Agora não dá mais p/ dormir com a janela do quarto aberta, p/ acordar cedinho, e sem o barulho da janela abrindo, poder observar as maritacas que comiam goiaba numa das goiabeiras do meu quintal. Ou correr com um pedaço de pão, que servia como isca p/ o meu cachorro! Agora o que restou foi uma sombra, uma árvore morta, e um velho cachorro, numa casa velha, que não parece mais a casa onde crianças corriam, e festas aconteciam.
E eu continuo lembrando dos amigos do bairro. Da Carolina, Camila e Cibele, as minhas primeiras amigas, que não vejo há mais de 10 anos. Nunca mais tive coragem de tocar aquela campainha. Nem sei se elas me reconheceriam. E continuo, e lembro das brincadeiras de esconde-esconde (que eram muito emocionantes, já que minha casa possuía vários esconderijos muito bons).
Agora me levanto, e sigo até o portão, e no caminho passo pelo corredor, que me dava medo. Agora passo por ele sem nem olhar p/ trás. Passo pelo jardim, que foi estrategicamente diminuído pelo meu pai, p/ caber mais um carro na garagem. E em algum lugar desse jardim está enterrado meu outro cachorro, que morreu há quase 10 anos, numa briga com o Rex. A natureza é feroz. Um dia, você é forte, e enfrenta qualquer coisa. O tempo passa, e o que você havia enfrentado está maior, e mais forte que você, e te vence. E olho p/ o muro que há 10 anos, eu tinha medo de subir, mas que mesmo assim, ia buscar o pipa que caiu no telhado. Entro no meu carro, e é meu subconsciente que se preocupa com a direção. O consciente está ocupado com lembranças. E pelo caminho para casa, passo pelo meu antigo colégio, que me traz mais lembranças, enquanto as lágrimas escorrem.
Dia 17 fez 4 anos que conheci uma menina que mudou o rumo da minha vida, mas não pôde continuar seguindo comigo. Ela seguiu o caminho dela, e agora eu sigo o meu. Incrível como parece ontem que eu a conheci, e tanta coisa mudou desde então.

E depois de alguns minutos, quando as lembranças se acalmam, eu consigo concluir que o que sou hoje, sou graças à esse passado que me entristece. Desde a teimosia, à facilidade de integração, que foram moldadas durante a adolescência, período que, ao que parece, está me trazendo mais confusões e dúvidas agora, do que em seu ápice.
E choro mais uma vez, escrevendo este texto, por ter lembrado de tudo novamente.
Cada livro que eu li, programa que eu assisti, brincadeira que joguei, agora me olham e cobram o resultado de terem passado pela minha vida. Tornei-me bom, ou mau? Ou simplesmente, tornei-me adulto - bem e mal juntos, compartilhando esta pessoa, que, como cada ser humano, é um universo indecifrável e sem tamanho?
E novamente me lembro que devo seguir e conquistar cada vez mais, mas não posso esquecer de viver esse tempo, pois daqui p/ diante, em qualquer tempo da minha vida, eu sempre vou lembrar do que aconteceu 10 anos atrás. E não posso correr o risco de chorar novamente daqui a 10 anos.

11 janeiro 2011

Repensar os animais - Paola Cavalieri

Pela primera vez, vou publicar um texto que não é meu. Eu gostaria muito que fosse. Segue.
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Nos anos mais recentes, os animais não-humanos têm estado no centro de um intenso debate filosófico. Mais concretamente, muitos autores criticaram a moral tradicional, defendendo que o modo como nós tratamos os membros de outras espécies é eticamente indefensável. Usualmente, usamos animais como meios para os nossos fins – na verdade, tratamo-los de maneiras que consideraríamos profundamente imorais se fossem destinadas aos seres humanos. Apesar dos animais serem “pacientes morais” – isto é, seres cujo tratamento pode estar sujeito a uma avaliação moral –, o seu estatuto é infinitamente inferior ao nosso. Será que esta duplicidade de padrões está garantida? E, se está, em que base assenta?

Apesar de não ser completamente ignorada pelos filósofos, a primeira justificação oferecida é forte e está bem espalhada a nível da sociedade, sobretudo devido à sua simplicidade. À questão a respeito do que nos separa dos outros animais, a resposta é: o facto de eles não serem humanos. Nesta perspectiva, aquilo que é significativamente diferente é a posse, ou falta, de um genótipo característico da espécie Homo Sapiens. Será que esta é uma boa resposta? Não. Aqueles que apelam ao facto de se pertencer a uma espécie trabalham dentro do quadro do paradigma do igualitarismo entre humanos. E é justamente a linha de raciocínio que sustenta a igualdade entre humanos que, ao rejeitar a relevância moral da pertença a uma raça ou a um sexo, implica também a rejeição da ideia de que a pertença a uma determinada espécie seja em si mesma instituinte de uma diferença significativa quanto ao estatuto moral de um ser. Se alguém afirma que as características biológicas como a raça e o sexo não têm relevância ética, como pode então atribuir relevância a uma outra característica biológica, como a pertença a uma espécie? As perspectivas morais que aceitam o “especismo” – a ideia que defende a atribuição aos membros da nossa própria espécie um estatuto moral especial - ao mesmo tempo que rejeitam o racismo e o sexismo são internamente inconsistentes.

O especismo absoluto dificilmente poderá ser plausível. Mas há maneiras mais sofisticadas de defender a nossa presente duplicidade de padrões às quais os defensores teóricos do status quo tendem a recorrer. Para a maioria dos filósofos, não é a pertença a uma determinada espécie, mas a racionalidade que tem uma relevância central. Podemos admitir, a bem do argumento, a presunção (questionável) de que a racionalidade é um privilégio humano para nos podermos concentrar na importância moral da racionalidade.

Um argumento muito conhecido, que remonta pelo menos a Kant, depende da ideia de que os seres racionais são a condição para a existência da moralidade. As normas éticas dirigem-se a um tipo concreto de seres – os agentes morais. Os agentes morais são os seres racionais cujo comportamento pode ser submetido à avaliação moral. Se os agentes morais não existissem, não poderia haver normas éticas. Consequentemente, a ética é essencialmente um assunto que diz respeito aos agentes morais. Não obstante a sua plausibilidade superficial, este argumento baseia-se num mal-entendido. A sua conclusão consegue-se pela passagem da ideia de que apenas os seres racionais podem ser moralmente responsáveis para a ideia de que apenas o que é feito a seres racionais tem importância moral (total). Mas o como, isto é, a possibilidade da moralidade, é uma coisa; o quê, isto é, o objectivo da moralidade, é outra. Reconhecer que os agentes morais tornam a moralidade possível não significa que eles sejam os únicos pacientes morais (totais). Podemos ver que na verdade não defendemos esta perspectiva se atendermos ao facto de não pensarmos que as crianças pequenas, ou os indivíduos intelectualmente diminuídos, por não poderem agir de acordo com normas éticas, não devem ter um estatuto moral especial.

Há uma segunda versão mais radicalmente exclusivista do apelo à racionalidade, e que atribui um valor instrumental a esta característica. A noção central é que a introdução de um ser ou de um grupo de seres na comunidade moral pode ser justificada através de um tipo de acordo. Dado que para cumprir o acordo é preciso ser-se racional, o acordo incluirá apenas seres racionais, que serão os únicos pacientes morais. À luz desta ideia, as normais morais são as normas que indivíduos racionais com interesses próprios aceitariam cumprir, mediante a condição dos outros procederem exactamente da mesma maneira. Se o argumento anterior sugere a posição contemporânea de John Rawls, também lhe reconhecemos a ideia das vantagens mútuas do contratualismo de origem Hobbesiana. Mas esta perspectiva tem consequências inaceitáveis, uma vez que os contratantes com interesses próprios não obtêm nenhuma vantagem ao aceitarem princípios que oferecem garantias a indivíduos incapazes de dar qualquer garantia em retribuição, pelo que os primeiros podem ignorar os interesses daqueles que não são capazes de retribuir. Mas, se a regra de ouro “trata os outros como quererias que os outros te tratassem a ti” é substituída por aquela que podemos chamar a regra de prata, “trata os outros como eles te tratariam”, a vantagem mútua tem o efeito devastador de afastar a imparcialidade ética. Mais uma vez, demonstramos que detemos isto quando não privamos de direitos os jovens ou os desamparados ou apenas os seres humanos futuros que não podem ter deveres para connosco.

Apesar de muitas outras defesas da doutrina da superioridade humana terem sido avançadas, o apelo à pertença a uma determinada espécie, o apelo à posse de racionalidade como uma pré-condição para a moralidade, e o apelo a esta mesma característica como um meio para o acordo entre sujeitos são certamente as mais básicas defesas desta perspectiva, em torno das quais todas as outras se situam. Se nenhuma delas consegue justificar a manutenção dos animais não-humanos na sua presente condição moral inferior, parece plausível inferir que a nossa atitude actual é profundamente errada. Mas que tipo de perspectiva deve ser adoptada em vez da actual? Para responder a esta questão, muitos dos críticos da moral tradicional tendem a apelar às suas posições normativas específicas. Contudo, isto não é necessário. Temos já à nossa disposição uma teoria que, se considerada imparcialmente, pode enfrentar todas críticas anteriores. É o conjunto de princípios e juízos que recentemente têm sido reunidos sob os auspícios da doutrina universal dos direitos humanos.

No centro da teoria dos direitos humanos está a protecção dos interesses vitais – no bem-estar, na liberdade e na vida – de alguns seres. De quais, exactamente? Apesar da resposta mais comum, e aparentemente tautológica, ser “dos seres humanos”, esta afirmação é, como já vimos, inaceitável pelo facto de que a discriminação com base na espécie é análoga às formas de discriminação que a mesma doutrina condena no sexismo e no racismo. Ao contrário dos autores dos manifestos políticos, os filósofos que analisam esta questão parecem estar cientes deste problema, e, quando chamados a pronunciar-se sobre isso, a referência à espécie é introduzida de forma apressada e indirecta. O que pode, então, explicar o porquê dos direitos humanos – de dizer o que é que, nos seres humanos, justifica a atribuição de uma igual protecção fundamental?

Entre as soluções avançadas, a mais defensável parece ser aquela que é apresentada pela linha de raciocínio que apareceu no início da década de 60, culminando na elaboração apresentada pelo filósofo americano Alan Gewirth. De acordo com esta linha de raciocínio, o critério para o acesso à protecção que os direitos humanos oferecem assenta apenas em ser-se um agente – um ser com intenções que se preocupa com os seus objectivos e que os quer atingir. Todos os seres com intenções caracterizam-se pela capacidade de desfrutar da liberdade e do bem-estar (e da vida, que é a pré-condição para estes dois bens), quer directamente, quer como pré-requisitos para a acção; e, para todos estes seres, o valor intrínseco do seu desfrute é o mesmo.


Para escolher um critério em vez da intencionalidade, qualquer outra característica – seja a racionalidade ou qualquer outra entre as capacidades cognitivas tradicionalmente vistas como “superiores” – seria arbitrária, uma vez que excluiria da consideração interesses que são relevantemente semelhantes até ao ponto em que são igualmente vitais para os seus portadores.

Uma vez apresentada, esta resposta – que tem, entre outros aspectos, o efeito importante de barrar o caminho a desacreditadas perspectivas perfeccionistas do mundo - parece óbvia. E, ainda assim, envolve uma consequência que não é igualmente óbvia: com base na própria doutrina que os estabelece, os direitos humanos não são apenas humanos. A aceitação implícita da ideia de que a pertença a uma determinada espécie não é moralmente relevante não só elimina da teoria qualquer referência estrutural à posse de um genótipo Homo Sapiens, mas a obrigação de garantir direitos fundamentais iguais a todos os seres humanos, incluindo os não-racionais, implica que o critério para a atribuição de tais direitos deve situar-se num nível cognitivo acessível a uma grande quantidade de animais não-humanos.

O que poderá significar alargar a atribuição de direitos fundamentais para além das fronteiras da nossa espécie? A propósito disto, deve notar-se que duas características fundamentais definem a classe particular de direitos morais a que chamamos direitos humanos. Por um lado, apesar das tentativas para incorporar na doutrina alguns direitos positivos, ou direitos à assistência, os direitos humanos continuam a ser fundamentalmente direitos negativos, ou direitos à não-interferência. Por outro lado, desde que os direitos humanos se apresentaram como uma resposta às formas de violência e discriminação institucionalizadas que marcaram a primeira metade do século XX, o modelo, quer da sua implementação, quer da sua violação, é baseado na organização e na acção do estado.

Reconsideremos portanto a situação presente em face destes aspectos. Biliões de animais que preenchem o requisito da intencionalidade são feridos, aprisionados e mortos na prossecução de objectivos humanos. Mas a inflicção destes ferimentos, o aprisionamento e a morte destes animais são apenas o oposto da protecção da interferência institucional que a teoria dos direitos humanos procura garantir. Consequentemente, uma implementação justa desta teoria requereria mudanças legais que implicariam que os animais em causa passassem da condição de objectos para a condição de sujeitos de direito, bem como uma proibição geral das práticas de exploração que são tornadas possíveis pelo seu presente estatuto.

Assim, parece que, longe de estarem no fim de uma pirâmide moral no topo da qual nos mantemos com segurança, (a maioria) dos não-humanos põe-nos perante a força de uma exigência ética justificada. Por muito deslocada que possa parecer da nossa realidade do dia-a-dia, esta conclusão talvez não surpreenda aqueles de nós que vêem o progresso moral como a história da substituição das visões hierárquicas por princípios a favor da igualdade.

Paola Cavalieri
Editora do Jornal de Filosofia “Etica & Animali” e Co-Editora do The Great Ape Project: Equality beyond Humanity

Tradução de Miguel Moutinho, do original “Rethinking Animals”, retirado de “The Philosopher´s Magazine” Ethics Portal, em www.philosophers.co.uk/ethics.php.

Fonte - CEDA – Centro de Ética e Direito dos Animais

10 dezembro 2010

Tratamento ético aos animais

Você come carne ou ovos? Se sim, sabe qual a origem deste alimento? O animal que você estará saboreando no almoço teve uma vida o mais próximo do natural possível? Ou viveu apenas 6 meses, confinado, torturado, com uma lâmpada na cara que fica acesa por 6 horas seguidas, depois apagada 6 horas seguidas, simulando um dia e uma noite na metade do tempo, de modo a forçar o animal a pôr ovos na metade do tempo?

No mundo todo, principalmente em países com pouco espaço, há pecuária realizada por meio do confinamento. Os bois e vacas são mantidos em pequenos currais, onde não podem andar, correr, manter laços com outros de sua espécie, comer pastagens naturais. São forçados a comer a mesma ração no tempo arbitrariamente determinado. São tratados como máquinas. Imaginem uma vida assim. Pensem nos escravos. Um absurdo que isso tenha existido no Brasil, não? Pois então, a vida deles era melhor do que a vida a que são submetidos muitos animais. Mas, no caso do Brasil, isso praticamente não existe. O gado bovino é criado quase exclusivamente de forma extensiva, ou seja, os animais são soltos, comem pastagem. Por isso, quero me dedicar mais às aves, que, no caso do Brasil, são os animais que sofrem mais (e, numa escala de sofrimento, os porcos vêm em segundo lugar).

Certamente todos vocês já viram um caminhão levando galinhas, não? Todas aquelas gaiolinhas amontoadas, com tão pouco espaço que as aves não conseguem sequer abrir as asas. Alguns animais ficam na parte de baixo, no fundo. Imaginem respirar naquele canto onde nem a luz do dia alcança. Agora imaginem que aquilo É A VIDA daqueles animais. Elas sairão do caminhão e continuarão naquela mesma gaiola o resto de suas vidas, sem poder ciscar, passear, esticar as asas. Alguns produtores arrancam o bico das aves, afinal, elas são apenas máquinas, certo?, onde se coloca a ração em um lado, e se recolhe o ovo no outro. Como já mencionei, há lugares em que, para se obter mais ovos, e, sabendo-se que o ciclo de produção de ovos das galinhas é baseado em dia/noite, enfia-se uma lâmpada na cara das galinhas, para que o ciclo dia/noite ocorra na metade do tempo. Claro que há “pequenos” efeitos colaterais: uma galinha criada solta vive até 6 anos. Uma galinha nessas condições vive 6 meses. Mas tudo bem, não é? A carne dela também será aproveitada. Ou será vendida, ou será transformada em ração para outras galinhas.

Bem, há coisas muito, MUITO piores do que eu descrevi aqui (como pintinhos sendo jogados vivos em máquinas de moer), mas aí já estaria beirando o sensacionalismo, já que, no Brasil, essas coisas piores seriam exceções. A regra, entretanto, é aquilo que descrevi: confinamento.

Pessoal, isso não vai acabar enquanto não houver um sistema alternativo. As pessoas não deixarão de consumir ovos ou carne, pois essas torturas acontecem longe de nossas vistas da cidade grande. A solução é asfixiar financeiramente essas empresas não-éticas. Deixar de comprar de quem produz às custas de sofrimento alheio! E como fazer isso? Como, no supermercado, saber qual ovo veio de uma galinha torturada e qual veio de uma galinha que viveu (e talvez ainda viva, já que uma galinha vive bastante tempo) livre? Este é o objetivo deste e-mail.

Existem certificadoras, empresas que verificam se o processo de produção é feito respeitando o animal e seu bem-estar, e dão selos a empresas que atendem estes e outros requisitos.

Neste link você pode ver sobre a certificação. Neste, dá pra ver como saber, pelos rótulos, qual empresa utiliza um sistema de produção ético (dêem preferência para alimentos orgânicos certificados!). Aqui, você confere dicas para ajudar a acabar com o confinamento de animais.

Neste site, se você se interessar, você pode ver vários outros tipos de absurdos que são cometidos com os animais. E aqui, você tem acesso a várias certificadoras, e você pode ver como funciona esse processo, que é regulado pelo governo.

Gente, eu não estou falando pra paramos de comer feijoada, ovo, churrasco, etc, etc. Isso é muito bom, e se, para termos essas coisas a única opção for torturar os animais, eu estou certo que a tortura jamais acabaria. Estou apenas dizendo o seguinte: há opção! Dá pra continuarmos comendo essas coisas, mas oferecendo uma vida plena, sem torturas, a esses animais.

Só pensem sobre isso. Talvez um produto orgânico custe 2 reais a mais, já que, de fato, custa um pouco mais não tratar os animais como máquinas (mas esse valor tende a diminuir quanto mais houver produção deste tipo de alimento). Mas será que não vale a pena pagar 2 reais a mais sabendo que o animal do qual você se alimentará não foi torturado? Eu acho que vale.

07 outubro 2010

Aborto até o nono mês???

Aproveitando que só se fala nisso (por maus motivos), vou dar uma palavrinha também. Vocês já devem ter visto em algum lugar uma moção da igreja contra a lei que legaliza o aborto, nos seguintes termos: "diga não à lei que legaliza o aborto até o nono mês". Ora, que absurdo, claro que eu sou contra uma lei que legaliza aborto até o nono mês! Quem seria a favor disso? Imaginem, o bebê poderia nascer amanhã e seria saudável, e viveria fora do útero materno tranquilamente, e aí a mulher decide abortar? É um absurdo!

Ok, ok. Estranhei. Eu sei que existem leis no Brasil que são ridículas, e tal. Mas a lei que é ridícula não existe no vácuo. Ela tem contexto. E, normalmente, o contexto explica a existência dessa lei. Por exemplo, hoje em dia as pessoas tendem a achar absurdo criminalizar o adultério. Mas, em uma época em que a religião era muito mais forte, e a honra blablabla, fazia sentido que o adultério fosse considerado crime. Hoje não.

Então como pode existir e prosperar um projeto de lei que vai totalmente contra o espírito do tempo? Hm... Curioso. Bom, o que um cidadão faz nessa situação? Suspende o juízo? Fala sobre futebol? Repassa uma corrente na internet? Tá bom, são opções. Mas eu fui atrás desse projeto de lei. E sabem o que eu descobri? Vejam só, a lei libera o aborto em:

1 - qualquer situação, até 3 meses de gestação (sou favorável)
2 - em caso de estupro, até 4,5 meses de gestação (sou contra)
3 - em caso de risco de vida à mãe
4 - em caso de doença grave

Achei até bem razoável. Mas espera aí. Onde está a liberação até o nono mês de gravidez? Você, leitor mais inteligente, já percebeu qual é a jogada. A lei é clara em relação ao tempo de gravidez (3 meses, 4 meses e meio) para gestações normais, mas não especifica tempo em casos de risco de vida, ou seja, em gestações especiais. Mas espera aí. JÁ É ASSIM HOJE! Aliás, em caso de estupro, esta lei é até mais restritiva, já que hoje não há um tempo máximo para este caso. A única mudança que a lei implementaria seria o aborto liberado em qualquer situação até os 3 meses. Ou seja, a lei NÃO é contrária ao sentimento social. E não estou dizendo que a sociedade seja favorável ao aborto, pq acho que não é, mas admite o debate nestes termos (aborto até 3 meses), sendo que jamais admitiria sequer o debate de um aborto de gestação normal até o nono mês.

Perceberam como é fácil, sem mentir (apenas omitindo), colocar a população contra uma coisa que esta população não conhece? Que vergonha, hein, igreja!! Que vergonha!!!

Ps.: sobre a Dilma, nem acho que o problema seja ela ser favorável ao aborto. Ora, cada um tem sua opinião, e se sua opinião, como a minha, for contra o pensamento da maioria das pessoas, vc que aceite pagar o preço, ué! O que não pode é ser favorável a uma coisa polêmica, contrária ao pensamento da maioria, e aí, na boca da urna, mudar de idéia! Aí não, né!

30 setembro 2010

Urubuzando a Bienal


Rolou um debate sobre o uso de animais na arte, e eu fiquei assistindo quietinho, pois ainda não havia formado uma opinião a respeito. O debate deu-se a partir de um texto que uma ONG publicou sobre os urubus usados na Bienal. Segundo o texto, os urubus iriam ficar ouvindo música alta, iriam ficar expostos à luz, iriam sofrer isso e aquilo. Argumento vai, argumento vem, e agora eu tenho uma opinião! Não é lindo? Segue:

Eu fiquei, durante esses dias, lendo os textos de todos, e lendo também o que saía na internet sobre o assunto, e acho que agora já tenho uma opinião sobre o assunto. Mas, antes de mais nada, queria fazer uma correção: diferentemente do que estava no texto do abaixo-assinado, os 50 alto-falantes não tocam música nenhuma. O silêncio deles é parte da obra.

Vamos lá. A princípio, não vi problemas em se usar um animal na obra. Era de se supor que eles seriam bem tratados, e também que não seriam bichos selvagens que foram confinados exclusivamente para a exposição, até pq, se fosse o caso, aí a discussão nem seria sobre arte; seria sobre polícia, e acredito que os organizadores da Bienal não estão interessados em aparecer nas páginas policiais.

Mas, intuitivamente, alguma coisa estava errada, e foi nisso que fiquei pensando durante esses dias. E aqui segue o que eu pensei.
O texto postado neste grupo iniciou uma discussão sobre o TRATAMENTO (foco nesta palavra) dos animais na exposição. Aliás, o próprio texto foca esse aspecto, quando diz que é um absurdo não a exposição em si, mas as condições a que os animais estariam submetidos (os alto-falantes que estariam tocando música alta, o estresse de ficar o dia inteiro sob forte iluminação e sob os olhares e barulhos dos visitantes, etc), de forma que, aparentemente, o texto não condenaria a exposição dos urubus se eles estivessem sendo bem tratados, e foi isso que levou o grupo a discutir as vantagens biológicas do urubu ser dominado pelo homem (e poder ser exposto) versus as dificuldades que ele passaria na natureza, etc.
Na minha opinião, portanto, a discussão estava equivocada. Acho que ninguém discorda quanto a ser imperativo que animais domésticos ou domesticados sejam bem tratados. Além disso, a discussão quase partiu para 'aquilo é arte?', mas, ainda assim, acho que não se discutiu a essência do que estava acontecendo: 'é justo/lícito/correto/ÉTICO que se use animais vivos em uma obra artística?'.

Reitero um ponto, para que fique bem claro: estou 'descartando' a discussão sobre o tratamento dos animais pq acho que isso é um ponto de convergência. O bom tratamento dos animais é premissa, não está aberto a questionamentos, e o texto inicial, com toda a intenção de se mostrar contra o uso dos animais, acabou apelando para a mistificação de que os animais estariam sofrendo, provavelmente com a intenção de sensibilizar ainda mais o leitor, mas isso fez com que se escapasse a discussão principal, que é essa que estou propondo agora (e que propus a mim mesmo enquanto pensava sobre tudo o que vocês escreveram): 'é correto que se use animais vivos, ainda que bem tratados, na arte?'.

Para balizar minha opinião, utilizei a igual consideração de interesses, tema do Peter Singer. Questionei-me:
- Ser exposto numa obra de arte trará de forma objetiva e incontestável algum benefício para o animal?
Evidentemente a resposta é 'não', já que ele seria (deveria ser) bem tratado de qualquer forma. Pior ainda se estivermos falando de um animal selvagem, capturado apenas em nome da arte.
- Ter o animal exposto numa obra de arte trará de forma objetiva e incontestável algum benefício para os homens?
A resposta também é 'não', já que qualquer tipo determinado de arte é sempre contingente, nunca necessário (o que não significa que a arte em si não seja necessária; mas existem infinitos tipos de arte, e aquela específica que usa os urubus não é necessária).

Reparem que estas questões, se aplicadas ao uso de cobaias, ou ao uso de animais na alimentação, trarão respostas diferentes, já que há sim benefícios claros e inequívocos aos homens na criação de vacinas e medicamentos, e a alimentação nem precisa ser argumentada, certo?

Bem, por esses motivos acho que o uso de animais como 'obras de arte' deveria ser proibido. Aliás, acredito que os animais possuem o mesmo grau de inimputabilidade de uma criança, o que nos leva, no mínimo, a pensar se o tratamento dispensado a ambos não deveria ser o mesmo. Imaginem uma criança que mora na rua, que é espancada pelos pais, sendo exposta numa obra de arte (atenção: ela não estaria sendo exposta POR CAUSA dos maus tratos que sofre, mas seria um complemento da obra, seria parte da obra, e não A obra), e, questionado, o artista diria que ela está sendo muito bem tratada, recebe 3 refeições por dia, cuida da higiene, e está muito melhor na exposição do que estava antes, na rua ou apanhando dos pais.

Ah, já admito logo: sou especista, o que não significa que acho que podemos maltratar os animais à vontade. Há formas de utilizá-los para o bem da humanidade sem fazê-los sofrer, ou ao menos evitando ao máximo qualquer sofrimento desnecessário.

E, pra finalizar, minha opinião sobre aquela obra de arte específica: acho uma idiotice usar os urubus. Acho que ficaria mais significativo se, com os 50 alto-falantes mudos, o artista formasse a imagem de um urubu, por exemplo.

08 julho 2010

Os Dissidentes Cubanos

Ah, Cuba libertou 52 presos políticos? Que bom... Quantos ainda faltam?

Mas o mais engraçado é ver gente que até ontem dizia que Cuba os prendeu por serem agentes americanos, traidores, etc, e hoje diz que a libertação é uma demonstração de como Cuba é democrática...

Pera aí, mas se eles eram traidores, agentes infiltrados, então eles deveriam continuar presos, ora! Se foram soltos, é porque não eram traidores, nem agentes coisa nenhuma: eram presos políticos mesmo. Cometeram crimidéia.

Ai, ai, nem o governo de Cuba está colaborando com esses esquerdistas que defendem Cuba. Os coitados precisam ficar "mudando os fatos" a cada dia...

19 março 2010

É pra rir de quem?

Vejam a imagem abaixo:




Essa imagem é a quinta neste post do Kibeloco:
http://kibeloco.com.br/kibeloco/2010/03/18/pracas-do-braziu-partes-246-a-255/

Daí vem o título deste post. É pra rir de quem? Na certa, um ignorante metido a engraçadinho viu e pensou que o cara que escreveu era um pobre... ignorante. Ocorre que brava é uma espécie de mandioca, e, de fato, ela é venenosa. Aquela placa pode ter salvo a vida de algumas pessoas mais humildes, que pensam duas vezes antes de rir de alguma coisa.

Por isso que, antes de corrigir alguém, é muito bom pensar 10 vezes. Será mesmo que a pessoa está errada?

10 fevereiro 2010

O ateu e o suicídio

Deve ser muito legal ser um espírita, ou um hindu, ou um budista, ou de qualquer religião que acredita em reencarnação. Um mundo assim seria bem melhor.

Veja o caso de quem é cristão: se a vida dele é uma merda, ele não pode se matar, senão, depois de sabe-se lá quanto tempo até o cristo retornar, ele (o cristão) vai pro inferno. Muçulmano ainda pode ganhar 72 virgens, mas pra isso ele tem que se matar levando um monte de gente, então também não deve ser legal, acho.

Judeu eu não sei, mas se matar deve ser ruim também, pq eu lembro que no cerco de Massada, fizeram um esquema em que sortearam quem mataria quem até sobrar o último, que se matou, e isso tudo para que somente um sofresse as consequências do suicídio.

O espírita tecnicamente pode se matar sem problemas. Ele vai voltar numa escala mais baixa da evolução espiritual, é verdade, mas vai ter chance de refazer o caminho. Suicídio pra um espírita (logicamente falando, claro), é como desligar a máquina e colocar uma ficha de novo: você volta lááá atrás, mas volta.

Já o ateu, coitado, pior de todos! Pra esse, como não há perspectiva nem de um céu, nem de uma reencarnação, se matar é uma bobagem! Todas as fichas dele estão apostadas nessa única vida. E nem sentido ela tem! Mas se ele se matar, não vai ganhar NADA. Não vale a pena para o ateu se matar, simplesmente isso.

O cristão, mesmo indo para o inferno, pode fazer isso como um martírio. Como há uma vida após a morte, ainda pode haver alguma chance de deus ter alguma piedade dele e tirá-lo do inferno. Ou mesmo antes de ir para o inferno, durante o julgamento, deus pode concordar que deu uma vida de merda pro cidadão e fazer vista grossa pro suicídio dele. Isso deve valer também pros muçulmanos e pros judeus. O deus dos três é o mesmo, né...

Mas o ateu não tem chance. A vida dele está exclusivamente na carne, no físico (a dos religiosos também, visto que tudo que se encontra nos céus das religiões é prazer carnal: leite e mel, virgens para deflorar, sei lá, plástico-bolha?, mas isso é outra história).

Resumindo: quando o ateu tá na merda, vale mais a pena aproveitar a merda... ele não terá nem merda depois pra aproveitar.

10 dezembro 2009

Votação quântica

Leiam isso:

"Na noite de ontem, o Parlamento unicameral hondurenho decidiu, por 111 votos contra 14, confirmar a decisão que tirou o presidente do cargo em 28 de junho, negando a possibilidade de que Zelaya retornasse para concluir seu mandato até 27 de janeiro.

"Com isso, o Congresso foi contra o cumprimento de um dos pontos principais do Acordo Tegucigalpa-San José, defendido pelos Estados Unidos e pela União Europeia como um caminho para sair da crise.

"O documento, assinado em 30 de outubro pelo governo de fato e representantes do presidente deposto, previa a restituição de Zelaya, por meio de votação no Parlamento, além da formação de um governo de unidade nacional e o estabelecimento de uma comissão de acompanhamento e investigação."


Pra quem não acompanha, ou acompanha pelo que falam por aí, é o seguinte: o tal documento não previa a RESTITUIÇÃO de Zelaya, e sim que seria o Congresso a decidir sobre isso. Quem quis isso, inclusive, foi Zelaya. Micheletti queria que fosse a Suprema Corte a decidir.

Ou seja, é mentira que a restituição estava no documento. Aliás, nem é preciso ser muito informado pra perceber isso, né? Só um pouco de lógica já demonstra a mentira. Vejam o que o próprio texto diz: "O documento (...) previa a restituição de Zelaya, por meio de votação no Parlamento". Como assim? Então a votação seria só de mentirinha? Seria uma votação com resultado já conhecido antes mesmo da votação? Seria uma espécie de votação quântica? Será que cada deputado recebeu um papelzinho dizendo em que ele deveria votar? será que a votação teria que ser pró-Zelaya por unanimidade, ou seria feito um sorteio para decidir quem vota em quê?

Que beleza de (certa) imprensa, hein... Que tal o slogan: "Informando a qualquer custo, mesmo contra toda a lógica"? Não vejo a hora de noticiarem a revisão da lei da gravidade...

03 dezembro 2009

A Igreja Católica é f...

Mais uma vez, lá vou eu, um arauto do ateísmo, defender a Igreja Católica... Vejam que beleza:

"Para toda consciência, torna-se necessária uma escolha: a quem quero seguir? A Deus, ou ao maligno? A verdade ou a mentira? Escolher Cristo não garante o êxito segundo os critérios do mundo, mas assegura a paz e a felicidade que só ele pode dar".

Quem falou isso foi o Papa Bento XVI. Reparem nessa parte: "Escolher Cristo não garante o êxito segundo os critérios do mundo". Claramente, ele fala sobre riqueza, sobre bens materiais, etc. Alguém aí imagina aquele pastor (que tá cada vez mais informal) do Fala que eu te Escuto, ou o próprio Edir "Avatar" Macedo, ou algum pastor evangélico falando algo do tipo?

Nããão. Aliás, é até comum ouvir nesses programas evangélicos coisas assim:

"Para toda consciência, torna-se necessária uma escolha: a quem quero seguir? A Deus, ou ao maligno? A verdade ou a mentira? Escolher Cristo garante o êxito, garante o sucesso, garante uma família linda e maravilhosa, garante que sua empresa crescerá, que seu salário aumentará, que seus rendimentos lucrarão muito... E o caminho para Cristo é o não sei o que lá dos 318 pastores. E o dízimo é o pedágio."

Algo assim...

27 novembro 2009

Unibanida

Agora que passou o frisson causado pela feinha da Uniban, quero falar. Em primeiro lugar, a menina é feia, mas isso não é motivo para o linchamento moral a que ela foi submetida. Em qualquer país sério, ela já estaria milionária. Como não estamos num país lá muito sério, tenho minhas dúvidas se ela vai ser indenizada, e, mesmo se for, se vai receber essa indenização tão rapidamente quanto as pessoas juntaram-se para agredí-la.

Em segundo lugar, ela estava com um vestido ridículo. Há quem ache provocante, mas ainda que estivesse pelada, ninguém tem o direito de encostar a mão nela. Se fosse o caso (se estivesse pelada), que chamassem a polícia para prendê-la, mas fazer o que fizeram é absurdo. Ou o quê? A mulher provoca, o cara estupra, e a culpa é dela? "Ah, mas ninguém ia estuprá-la". É? Bem, se, por exemplo, eu vejo um monte de gente armada vindo pra cima de mim e dizendo que vai me matar, fica tentando arrombar a porta do lugar que eu estou, etc, etc, eu realmente acredito que vão me matar. Ou então tá todo mundo apoiando o Maluf de 1989: "se o sujeito tá com vontade sexual, estupra, mas não mata"? É isso? Se a mulher provocar, pode estuprar?

Em terceiro lugar, ela estava na Uniban. Esse foi o erro dela. Qualquer universidade séria teria feito o que? Expulsado todo mundo e feito um pedido de desculpas público para a menina, e ainda teria dado a ela uma bolsa de estudos integral. Mas não. Os sábios mantenedores expulsaram a vítima. Daí já se vê o que é realmente importante na visão de quem manda por lá: a vida, a dignidade, o respeito, nada disso vale mais que a mensalidade de mais de 50 alunos! Imagina, perder todas essas mensalidades...

Muito bem, tudo isso posto, fiquei por muito tempo pensando nas justificativas que eu escutei. Coisas do tipo: "é verdade, isso não se faz, mas ela provocou né?", e por aí vai. Bem, o "mas" mata, né. Repito: se ela estivesse pelada, ninguém teria o direito de encostar a mão nela. Se ela estivesse pelada e dançando nua para provocar os alunos, nenhum aluno teria o direito de encostar a mão nela. Ou seja, qualquer "mas" é punir duplamente a vítima: uma vez pelo fato ocorrido, outra por responsabilizá-la, ainda que tangencialmente, pelo fato ocorrido.

Chegamos, socraticamente, ao problema: como proceder a análise da situação de forma que se entenda pq todas aquelas pessoas fizeram o que fizeram, sem engatar nenhum "mas" que responsabilize a vítima? É difícil, hein. Pensei que eram homens das cavernas. Mas não eram. Pensei que fossem da direita reacionária e religiosa. Também não eram. Enfim, pensei, pensei, e só obtive UMA resposta satisfatória: os homens que participaram daquilo são homossexuais enrustidos que gostariam de, eles próprios, estarem naquele vestidinho, mas, justamente por serem reprimidos, atacaram aquela menina que usava-o de consciência tranquila. E as mulheres são aquelas babacas que estão sempre se achando gordas demais, magras demais; aquelas que são "vítimas" dos produtos de beleza, que sempre acham que tem uma pelanca aqui, uma celulite ali, e, resumindo, têm vergonha do corpo que têm. Atacaram a feinha que não tava nem aí pro que achariam dela. Acharam um absurdo alguém ter amor próprio o suficiente para, mesmo que contra os padrões de beleza, simplesmente usou a roupa que a fez sentir-se bem. Nada mais.

Não deixa ser ser uma forma de lutar contra o sistema, né? E ela foi escorraçada por atacar, com sua atitude, o status quo. Tá, essa última parte é brincadeira.

Mas é isso. Pra mim, gente que se preocupa tanto com o que o outro faz a ponto de atacá-lo só pode estar com inveja. Eu sei, tô sendo simplista, mas, de novo: essa foi a ÚNICA resposta que atende os requisitos necessários: entender o ocorrido sem responsabilizar a vítima.

Isso dá uma bela tese de mestrado. Mal posso esperar pra ler a primeira... E aposto que vai ser algo sobre a ideologia no ato de usar o vestido, a luta contra o sistema, a revolução contra o status quo...

19 agosto 2009

Sensatez

Vejam que pérola. O rapaz escreveu num fórum sobre abortos. O texto foi escrito numa pancada só, sem parágrafos, e com uma pontuação bem, digamos, rústica. O texto dele vai em azul, e eu vou quebrando e comentando em preto. Foi difícil, viu... Vamos lá.

Olhando os testemunhos não vi nenhum relato de homem... gostaria de contribuir.. sou contra o aborto.. ok... mas culpar o homem é injustiça.. temos praticamente nenhum método anticoncepcional garantido enquanto a mulher tem vários, mas isso é problema da ciência.

É verdade. Camisinha serve pra encher e animar festa.

Meu relato: em 1995 estava noivo, devido a brigas e excesso de ciúme resolvi acabar com tudo, ela insistiu, insistiu tanto que ficamos de novo, mas a situação piorou mais..viajei e com quase um mês fora voltei e acabei definitivamente. Ela disse, você não pode fazer isso, porque eu estou grávida! Eu pensei: grávida? Agora? Mentira sua? Assumo o filho, mas não vou mas viver com você. Ela abortou.

Hum.

Em 1999, namorava uma mulher de 22 anos, insistia tanto para casar, noivar, mas eu não queria até que resolvi acabar, mas você não pode acabar assim, ela disse... por que não? porque a minha menstruação está atrasada... justo agora que a gente acabou você vem me dizer que está grávida... uma semana depois ela disse que estava tudo normal.

Hum.

A terceira... comecei um outro namoro, já em 2001, ela disse logo: não se preocupe com camisinha, eu não gosto e não posso engravidar tenho policistos, não se preocupe.. perguntei tem certeza? tenho, não se preocupe... ok... namoramos tudo sem camisinha, ela engravidou! Ela se sentiu tão mal que abortou e não me disse... chegou para mim e falou: descobri que posso engravidar, fiquei grávida de você, mas já tirei, você confiou em mim... acabamos o namoro.

Pera lá, pô. Terceira vez? E, nas três vezes, o coitadinho não sabia de nada? Na terceira vez a mulher falou pra ele não se preocupar com camisinha (como se ela só prevenisse gravidez), mas e nas outras duas? Ok, o benefício da dúvida, né. Ele deve ser um azarado.

A decisão de ter um filho é uma decisão de duas pessoas, não de uma... acidentes acontecem.. ok.. uma menina de 15 anos ou mais nas primeiras relações é aceitável, mas mulheres maduras de 25 anos... dizer que engravidou por acidente é mais difícil acreditar, não é impossível, mas é difícil...

Como assim? Pera lá. O rapaz não usa camisinha, mas a responsabilidade por ter engravidado é da mulher? Pior: a CULPA é da mulher? Se a mulher é inexperiente, é ACEITÁVEL que engravide por acidente, mas uma mulher “madura” de 25 anos, aí é “difícil de acreditar”?

eu estava casado, sem filhos, começamos a brigar muito, pedi a separação, ela não aceitou, insistiu, pediu tempo, eu não agüentava mais a relação, dois meses depois ela disse: estou grávida...ai depois dizer que não teve apoio do homem e por causa disso abortou, ou seja, colocar a culpa nos outros, gostaria muito de uma pílula masculina para acabar de uma vez com isso...

QUARTA VEZ? QUARTA VEZ??? E “colocou a culpa nos outros”, dizendo que o homem não dava apoio. QUARTA VEZ. Será que ele nem desconfia que o problema PODE estar com ele? Sei lá, de repente ele não só não dá apoio, como ainda estimula a mulher a abortar. De repente, com algumas atitudes inconscientes, tipo deixar a agenda de telefones aberta na página “Clínica de aborto” depois da mulher ter dado a notícia. Quem sabe...
E ele gostaria de uma pílula masculina pra acabar de uma vez com isso... Pq a camisinha não serve, né. Vai ver ele é religioso, e a Igreja manda não usar camisinha. Tudo bem que a Igreja manda não fazer sexo fora do casamento, mas essa parte não importa, não é mesmo? QUARTA VEZ!!!!

o aborto é um problema grave, sou contra, mas a mulher tem o direito de fazer o que quiser,

Hahaha, é como dizer: as drogas são um problema grave, sou contra, mas, quem quiser usar, que use. E veja bem: a MULHER tem o direito de fazer o que quiser. Ele não tem responsabilidade nenhuma. Foi a mulher. Assim ele dorme com a consciência tranqüila...

olhando o mapa do aborto no mundo, por que a maioria dos países ricos permitem o aborto enquanto a maioria dos países pobres não permitem? Onde está a diferença? Os países ricos são ruins e os países pobres são bons?

É uma mentira que a maioria dos países pobres não permitem e a maioria dos países ricos permitem. Não existe tal relação.

Você gosta de ver uma criança descalça, suja pedindo esmola em um sinal? Você ajuda ou você faz que não ver? Se você não ajuda e é contra o aborto, desculpe, é hipocrisia...

Hipocrisia pq? Quer dizer que se o aborto fosse liberado, aquela criança não existiria, é isso? Essa relação também é bem quadrúpede, tanto quanto a dos países, acima. A menos, claro, que a pessoa esteja sugerindo que a mão forte do Estado seja usada para impedir que os pobres tenham filhos. Pq, enquanto as pessoas tiverem escolha, ainda mais num país religioso, a maioria continuará tendo o filho e depois o abandonando. O que permite concluir que o problema das crianças desamparadas não está na possibilidade do aborto. Eu acredito que é na educação, principalmente. Educação não da criança. Dos pais. Mas é a minha opinião.

Sou contra o aborto, mas a minha opinião é apenas uma opinião, acho que o Estado deveria rapidamente legalizar o aborto e acabar com a hipocrisia...

De novo: é como dizer: eu sou contra as drogas, mas o Estado deveria rapidamente legalizá-las para acabar com a hipocrisia. Não dá pra levar a sério alguém que não SE leva a sério. Se ele acha que a própria opinião está errada, ou é maluco, ou é burro.

Quem vai dar assistência para a criança? O Estado? A igreja?

Argumento mais idiota...

Uma cunhada minha, pobre, teve que passar por três maternidades para poder "dar a luz"... a bolsa estourou, foi em uma, aqui não pode, foi em outra, também não, na terceira, iniciou o trabalho de parto no corredor... Onde estamos com tamanha hipocrisia?

O que isso tem a ver com o assunto? A historinha deixa a situação dele até pior: ora, se a saúde pública está tão ruim que cometeram o crime de recusar uma mulher grávida que estava dando a luz, pq ele acha que dariam prioridade no atendimento de alguém que quisesse abortar? Ora, por esse raciocínio, provavelmente a gravidez já teria 9 meses quando fossem realizar o aborto.

Se a mulher quiser abortar, ok, temos que prestar assistência médica e psicológica...

Ah, temos é? Meu amigo, se a saúde pública é ruim para atender uma grávida numa situação de emergência, pq funcionaria para prestação de assistência médica E psicológica?

é a consciência dela que vai sofrer depois... não é a minha... cada caso é um caso, sou contra o aborto rotineiro, mas em algumas situações é um decisão dura, mas as vezes é a única.

Hahahahha. Ai meu deus. Depois o hipócrita é quem é contra e não ajuda as criancinhas...

Recentemente vi em um jornal: "doméstica presa por praticar aborto"... por que eu não vi?: "empresária presa por praticar aborto"... ou será que o aborto é coisa de pessoas pobres? Com certeza não é.. existe aborto em todos os meios da sociedade, mas uma vez, hipocrisia!

Ora, talvez pq uma empresária não tenha praticado aborto. E, se estivesse, estaria cometendo um crime igual a essa doméstica. E, se ela não está sendo punida, deveria estar. Não se obtém um acerto com dois erros. Pensando assim, deveríamos legalizar o assassinato, já que existem assassinos ricos que não são condenados, já que nos jornais só se vê pobres sendo presos, etc, etc.

Pra resumir, o rapaz é contra o aborto, mas acha que ele deveria ser liberado. Ele não usa camisinha, mas acha que a culpa da gravidez é da mulher. Os argumentos dele são essas historinhas de gente que não obteve atendimento médico quando precisava (e, se a mulher tivesse abortado, não precisaria do atendimento médico, entenderam?); de gente pobre que é presa cometendo um crime (e gente rica não é presa, então deveria logo ser liberado); de gente que não ajuda criancinhas e é contra o aborto (ora, se a mãe tivesse abortado, a criancinha não existiria e não precisaria ser ajudada). É gente idiota assim que acaba fazendo com que gente que tem bons argumentos seja rotulada como “egoísta”, como “contrário à vida”, etc, etc.
Às vezes acho que esse tipo de coisa é escrito de propósito por gente que é contra o aborto, só pra desmoralizar quem é a favor. Mas depois lembro que a imensa maioria das pessoas é simplesmente imbecil...

18 agosto 2009

Aborto de célula-tronco

Muito bem. O povo de deus brigou e conseguiu, em muitos lugares, inclusive no Brasil, impedir a clonagem terapêutica. O povo de deus conseguiu que se reconhecesse, em muitos lugares, um óvulo fertilizado como um ser humano. Há muita gente por aí afirmando que o aborto é um assassinato, considerando, portanto, que o embrião é um ser humano. Tudo muito bem.

Há um ano, mais ou menos, alguns cientistas conseguiram induzir células especializadas a reverterem para células-tronco. Os religiosos bradaram, felizes, que agora não havia mais justificativa para utilizar as células-tronco embrionárias (o que destruiria um embrião, ou seja, assassinaria um ser humano). Alguns cientistas tentaram dizer que não era a mesma coisa, que a CTE não era indispensável, pelo contrário, mas nesse momento os louvores a deus estavam muito altos e os religiosos não ouviram. Tudo muito bem.

Há um mês, mais ou menos, os mesmos cientistas do parágrafo anterior conseguiram transformar células já especializadas em nada menos que um embrião. Ora, significa que seria possível criar um novo ser humano sem a necessidade de células de mais de um doador. Mais: sem a necessidade de óvulos. E agora? O que os religiosos dirão? Veja: se "matamos" células de qualquer lugar do corpo, ninguém acha um absurdo, exceto pelo embrião. A justificativa: o embrião é a POSSIBILIDADE de um ser humano. Outras células não se transformam num ser humano. O embrião sim. Repito: e agora? O que dirão os religiosos, já que essa descoberta significa dizer que QUALQUER CÉLULA do corpo humano pode sim se transformam em um ser humano, como um embrião.

E agora? Como será a elasticidade lógica, dessa vez? Será que vão querer proibir agora QUALQUER pesquisa sobre reprodução humana? Faria sentido...

17 agosto 2009

Cabeção



O Edir Macedo não parece um avatar?

14 março 2009

Onde esse mundo vai parar?


Uma coisa tão chocante que merece a home do Terra.
Saudade dos tempos em que essa piranhada era tudo atéia, né não?

13 março 2009

A Excomunhão - II

Este blog nunca chegou num nível tão baixo. Mas é preciso. Vou comentar uma declaração de um dos brothers mais famosos do Brasil por 15 minutos. Mas só vou fazer isso pq é um pensamento recorrente, então vai mais pelo exemplo do que pela pessoa em si. As declarações que seguem foram feitas no programa da Ana Maria Braga.

Primeiro, o Max falou:
"Eu consigo entender por que ele [o bispo] assumiu essa posição. É igual ao uso da camisinha. A igreja católica prefere que as pesssoas peguem aids do que usem camisinha. Por isso eu não sou católico e não consigo entender muitas coisas que são defendidas. É muito arcaico".

Depois: "Às vezes, o padrasto nem sabia o que estava fazendo".

Daí a Ana respondeu: "Que 'mané' não sabe o que estava fazendo? O arcebispo é uma pessoa muito inteligente para excomungar as pessoas. Pressupõe-se que a igreja é uma instituição que acolhe, inclui as pessoas. Não que exclui".

É mais do que lamentável. É ridículo. É risível. Quer dizer que a igreja prefere que as pessoas peguem aids do que usem camisinha? Essa eu não sabia. Que eu saiba, a igreja prefere que os seguidores não façam sexo. E, sem fazer sexo, dificilmente se pega aids, não? Ok, o pensamento da igreja até pode ser arcaico, mas ela tem todo o direito de pedir A SEUS FIÉIS que façam x ou y. Só que entre ser arcaico e ser mentiroso, eu fico com o arcaico. Pelo menos, é honesto.

Não por acaso, é dele a frase mais impressionante, de que o padrasto que estuprou uma menina não sabia o que estava fazendo! É verdade. Vai ver ele achou que estava andando de bicicleta, aí quando viu, já tinha ido! Vai ver ele é sonâmbulo, vai saber...

Enfim, e, pra completar, o comentário da Ana é bem idiotinha. Pressupõe-se que a igreja acolhe, inclui as pessoas. Pressupõe-se, é? Bom, que eu saiba, essa pressuposição só faz sentido se também for pressuposto que as pessoas que serão 'incluídas' sigam as regras da igreja. Não faz o menor sentido a igreja dizer: "olha, nós condenamos veementemente o aborto em qualquer situação; para nós, aborto é o pior crime de todos, pois ataca uma criança mais do que indefesa" (não estou nem discutindo a validade dessa afirmação; eu mesmo discordo dela, mas é o que a igreja diz e pronto), e acolher quem faz abortos! Além do quê, não precisaria nem falar, mas não foi o bispo que excomungou a equipe médica. A excomunhão é automática. O bispo só comunicou.

O que me deixa mais surpreso é que existem tantas boas razões para ser contra a igreja. Pq inventar mentiras? Ao contrário da intenção de quem fala essas bobagens, isso acaba é fortalecendo a igreja, já que é facílimo demonstrar a mentira, e aí a igreja posa como santa. Como são ridículas as pessoas que falam do que não sabem...

09 março 2009

Um longo texto (começando pelo título) derivado de correspondência filosófica

"Acho que e-mail tem suas limitações, principalmente se ao invés de buscarmos esclarecer, a idéia for sempre refutar, o que eu particularmente acho que é mais coisa para o Direito do que pra Filosofia."
R: Bom, A República é feito praticamente de refutações, comentários, réplicas, tréplicas...


"O comunismo (...) foi imposto como uma ideologia dominante! E por isto usou os métodos já descritos [uso da força] como os daqueles que querem impor uma ideologia. Não lembro de ter citado esquerda, direita ou centro. Facismo, comunismo, sempre que alguém assume que seu ponto de vista e o bom e que todos terão de aceitá-lo temos a tentativa de dominação."
R: O comunismo foi imposto como uma ideologia dominante, por isso eu o citei. O que estava sendo dito anteriormente era que as ideologias se impunham, e eu discordei disso justamente mostrando que não foi o comunismo que se impôs, e sim uma minoria com o uso da força o impôs. Só usei o comunismo como exemplo, mas não acho que sempre que alguém assuma seu ponto de vista como o melhor etc. exista a tentativa de dominação. A tentativa de dominação só vai existir se esse grupo minoritário tentar utilizar a força para subjugar o grupo majoritário. Ora, o grupo minoritário sempre pode não querer influenciar o grupo majoritário, e, resumindo, ir viver sua vida em paz em alguma floresta por aí (existem muitos grupos que fazem isso)...


"Não conheço nenhum exemplo no mundo que não seja dominado por uma ideologia específica(ou uma mistura de algumas já conhecidas), acontece que Ideologia está mais para Heráclito do que para Parmenides(rs,rs) Dá derrota de uma nasce outra, entra em mutação e vira algo supostamente novo, mais sempre tentando se impor ( o que geralmente quer dizer: a vontade de poucos sendo imposta à maioria)
O individualismo não é uma ideologia, mas pode ser fruto de uma. É só entender as premissas básicas do capitalismo."
R: Esse é um dos meus principais pontos desde sempre! Capitalismo não é uma ideologia! O capitalismo não é nada mais do que o resultado de um grupo de indivíduos que pensam em si e nos que o rodeiam em primeiro lugar. Ou seja, o capitalismo é resultado do individualismo de muitos indivíduos, com uma certa ética que rege as relações. E repare que isso que eu falo não se aplica somente a humanos; podemos ver esse comportamento na natureza, e justamente por isso que eu falei que o "sentido natural" é o individualismo. A ética é que é o "anti-natural", a inovação humana, o que nos diferencia dos animais.


"A sociedade decide? Como? Com que filtros??? Baseada em que? Clodovil foi um dos picaretas mais votados numa das últimas eleições. Quem decidiu (coletiva ou individualmente ) decidiu por estar consciente e com o senso crítico em dia? Ou devido a total alienação e desconexão com seu papel social (por isto sindrome do looping). Decidiu sim, mas mal, muito mal.
Devido a tal letargia e ao 'nada vai mudar mesmo'. Então podemos chamar isto de decisão? Acha mesmo que estas pessoas estão afim de perpetuar este absurdo, porque decidiram algo? O que é decidir?"
R: É complicado, mas sim, a sociedade decide. Quais filtros? Cada um tem o seu. Quando falei "a sociedade decide", eu deixei claro que quero dizer que individualmente cada um decide e o resultado é a decisão "da sociedade". A sociedade não existe como um ente indivisível que toma decisões. Cada um tem uma motivação diferente para votar ou não votar em alguém, e isso é, por direito, problema particular! Dizer que alguém decidiu mal por ter decidido votar no Clodovil é ser arrogante e achar que você vale mais do que essa pessoa! Ora, vá perguntar a um eleitor do Maluf se ele não estava consciente e com o senso crítico em dia e veja o que ele vai dizer...

Todo nós somos alienados em certo sentido, pois não sabemos tudo. Ora, a pessoa que vota no Maluf pq o Maluf deu um emprego ao seu pai em alguma grande obra vai achar que você é um alienado por não saber que o Maluf é um empreendedor. A pessoa que votou no Clodovil pq julgou que ele nunca teve papas na língua e portanto ia botar pra quebrar no Congresso teve e tem todo o direito de achar isso e pronto, e é um bom motivo pra ela! De novo: é arrogância dizer que essas duas pessoas do exemplo votaram errado, que são alienadas, que não tiveram filtros, que não tinham senso crítico. Aliás, esse negócio de "papel social" é coisa de quem quer acabar com o individualismo. Felizmente (para quem acredita no individualismo, como eu), a imensa maioria das pessoas não pensa em "papel social". Pensa, sim, no que é melhor para si. E, cada um pensando no melhor para si dentro de uma determinada ética (para isso servem as leis), traz o melhor para o grupo.


"Como é possível uma decisão sem consciência plena das implicações da mesma?"
R: TODA e QUALQUER decisão que tomamos é feita sem plena consciência das implicações da mesma. Há sempre um fator a mais. Você pode decidir virar à esquerda e ser assaltado. Você tinha plena consciência do que implicava sua decisão? Se tivesse, provavelmente não teria escolhido virar à esquerda, certo?

As decisões que tomamos são sempre particulares. Quem vota no Maluf pq acha que o Maluf gera emprego com suas obras faraônicas tem um ótimo motivo. Quem vota no Clodovil pq acha que ele vai botar fogo no Congresso tem um ótimo motivo!! Assim como quem acha que o comunismo é melhor que o capitalismo, ou quem acredita na síndrome do loop (leia-se: acredita que a técnica, os avanços científicos, etc, são descolados do ser humano, e a crítica é quem aproxima, o que, na minha opinião, é falso) tem seus motivos pra acreditar nisso e, se acreditam, é pq os consideram ótimos motivos!

Perceba, e acho isso engraçado até, que esse papo de "ah, o povo não sabe votar" só surge quando quem está falando discorda do que foi decidido pelo povo. Lendo o que você escreveu, me lembrei da última eleição pra prefeito. Enquanto a Marta esteve na frente, só se falava bem do povo. Que o povo sabia o que era bom, que tinha lembrança da administração da Marta, etc, etc. Mas foi só ela ficar em segundo no primeiro turno que já começaram a mudar o discurso. Quando ela perdeu, aí sim começou o show: "o povo não sabe votar", "o povo é burro", "o povo não pensa", "o povo não tem memória". As MESMAS pessoas que diziam aos quatro ventos que o povo era bom passaram a dizer o inverso! Na boa, isso é ingenuidade ou má-fé.

Ora, eu também discordo de muitos dos políticos que estão eleitos, mas acho que o povo sabe muito bem em quem votar. Até pq, qual seria a alternativa? Uma ditadura? Uma teocracia?


"E, não estou julgando o mérito da questão. Não se trata de dizer qual ideologia é boa ou ruim. Trata-se de identifica-las. Refletir sobre. Descostruí-las através do penamento crítico. Ver o que é possível fazer e então agir, capisci?"
R: Sim, em momento algum o assunto enveredou por aí. Só discordei desse ponto a respeito de "ver o que é possível fazer e agir". Isso não existe, assim, dessa forma. Reitero: a não ser que haja massacres, perseguições, milhões de cadáveres, não há NADA possível a fazer. Não há ação a ser tomada. Claro que, partindo da idéia de que não queremos uma guerra civil.

As mudanças ocorrem vagarosamente, de geração para geração. Não é preciso esse "empurrão". Veja o caso da eleição do Obama, por exemplo. Ele é um negro que foi eleito presidente de um país que teve leis raciais, ou seja, racismo institucional. Mas a eleição dele não foi uma quebra de um paradigma, uma revolução; foi bem o inverso! A eleição dele é o resultado de pequenas mudanças que aconteceram em 4, 5, 6 gerações. A eleição do Obama não mudou a sociedade. A sociedade é que mudou, e, como resultado, houve a eleição do Obama. Quebra de paradigma ou revolução seria se um negro fosse eleito na época da vigência do racismo institucional. Só que isso seria paradoxal, e a história nunca é paradoxal. Afinal, oras, ela aconteceu!

Meu ponto, portanto, é que podemos, sim, identificar ideologias, refletir, etc. Mas somente como observadores da realidade, não querendo alterá-la. Quem teve essa segunda intenção, e teve meios para pô-la em prática, só produziu cadáveres. Aos milhões.

A Excomunhão

Mas com que direito essas pessoas vão criticar a Igreja por ter excomungado as pessoas que participaram do aborto da menina de 9 anos, grávida de gêmeos após ter sido estuprada pelo pai? Alguém é obrigado a ser católico? Não, né? Então, se quiser ser católico, o mínimo que se pede é que se siga as regras da Igreja Católica, vejam só que disparate!

Quer dizer que se eu inaugurar o Clube das Cartolas de Oncinha (CCO), onde qualquer um pode se afiliar desde que use cartola de oncinha, eu não terei o direito de expulsar o rapaz que quer usar boinas de oncinha? Ele quer fazer parte de um clube de cartolas, mas usando boina???

"São os novos tempos" - diz ele, como se eu não soubesse - "e cartolas saíram de moda. Hoje a moda é boina!". Ora, e daí? Vá você fundar seu próprio clube de boinas! O meu clube é de cartolas, e é pra gente que gosta de cartola independentemente da moda! Ora, se eu fosse depender da moda pra direcionar meus dogmas (como gostar de cartolas), eu não fundaria nem faria parte de um clube de CARTOLAS! Eu faria parte de um Clube do Chapéu da Moda (CCM). Não é meu caso.

Até entenderia se todos fossem obrigados a fazer parte do clube de cartolas; se quem não gostasse de cartolas fosse perseguido e jogado na fogueira. Aí sim, você teria todo o direito de chiar. Mas não é o caso! Você tem mil outros clubes! O Clube Universal do Reino dos Chapéus, o Clube Chapéu de Neve Club, o Clube do Solidéu, o Clube do Turbante...

Na verdade, acho é que a mídia tá se importando com isso muito mais do que as próprias pessoas. Desconfio que se as pessoas fossem realmente católicas, elas não participariam daquilo por princípio, não sob ameaça. E digo mais: a igreja deveria agir assim SEMPRE! Em vez de um monte de padre ficar lá passando a mão na cabeça de índio, de invasores de terra assassinos, de ex-internos da Febem que ganham Pajero; em vez de ficarem fazendo greve de fome pra impedir uma obra, deveriam simplesmente dizer que quem é contra demarcação contínua de terras, quem é contra a invasão de terras, quem é contra dar Pajero pros outros; e quem participar daquela obra, vai todo mundo ser excomungado! A mídia deveria dar atenção quando eles, AO INVÉS DE excomungar, fazem as outras coisas que eu mencionei!

Mas sabe pq eles não excomungam sempre? Pq a maioria das pessoas só ia dar de ombros e continuar o que estava fazendo... E sabe pq, nessa história do aborto, eles excomungaram? Pq o Estado garantiu que a menina iria abortar e ponto final, e eles não tinham mais o que fazer...

Ou seja, são uns coitados que apelam pra esse negócio de expulsar do clubinho só quando é a única coisa que eles podem fazer. Mas, pô, isso é direito deles!
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Nada a ver com o assunto, mas é uma dúvida séria (direcionada aos religiosos): se foi deus quem fez cada um de nós, os cientistas, quando clonarem seres humanos, estarão pirateando ou deus é pelo código aberto?

Lei Seca II

Eu sei, faz tempo. Mas leiam o que eu escrevi quando aquela lei que iria salvar o mundo e resolver todos os problemas foi criada: "Lei seca".

Pois bem, não faz nem um ano. A mídia deixou de dar atenção ao caso, a fiscalização voltou ao que era antes, e, vejam só que curioso, as mortes aumentaram, os bares voltaram ao ritmo de antes, e quem não seguia a lei anterior não está seguindo a lei nova!

Uau, mas então não era a lei... Seria a fiscalização? Não sei, não sei... Talvez o Gilberto Dimenstein saiba. Talvez quem se apoiou nas estatísticas dizendo que o número de mortes caiu graças à nova lei saiba. Bom, agora que as estatísticas mostram o inverso, o que será que essas pessoas estão pensando? Em proibir o consumo, armazenamento, porte de bebida alcoólica em todo o território nacional? É, podiam fazer isso. Sem fiscalização, não ia mudar nada mesmo...

Afinal, vivemos no único país do mundo onde leis não servem pra ser fiscalizadas e respeitadas. Aqui lei é como a moda. Ás vezes pega... às vezes não pega...

20 outubro 2008

A culpa é mesmo do Exército

Ah, como não poderia deixar de ser, apareceu alguém que não leu o que eu escrevi, mas comentou como se eu tivesse escrito. É sobre o texto A culpa é do Exército. Vamos recapitular: eu afirmei que a culpa não era da INSTITUIÇÃO Exército. Eu afirmei que os soldados que entregaram os jovens não poderiam ser culpados de assassinar os jovens pq simplesmente não foram eles que fizeram isso, e sim os bandidos "donos" do morro. Eu afirmei que quando os bandidos matam, ninguém liga, como se fosse o natural, o normal. Vejam o comentário de alguém anônimo:

Peraí: se alguém joga uma pessoa na jaula de um leão e esse leão "por um acaso imprevisível da natureza (quem diria!?)" mata o dito cujo, a culpa é do leão?! Vc acha mesmo que esse pessoal de facção é um ser humano que nem vc? Vc acha que quem entregava "subversivo" à Gestapo não tinha culpa por eles acabarem morrendo de fome, frio ou câmara de gás? Vc acha que os soldados entregaram os rapazes aos outros bandidos porque? Para eles fazerem um piquenique? Para uma festa de reconciliação? Então quem paga um sicário não tem culpa pela morte de quem ele mandou matar? Não existe autor intelectual de crime... Vc vai acabar revolucionando o direito penal

Muito bem, vou responder:
1 - eu não falei de leões nem de outros animais irracionais. Se um animal mata uma pessoa, a culpa não é do animal, afinal o animal não sabe o que está fazendo. Já os bandidos sabem muito bem o que fazem.

2 - Definitivamente eu acho que qualquer "pessoal" são, sim, seres humanos. Se não fossem, seria mais simples: era só exterminá-los, como fazemos com ratos ou baratas. Ai, ai, depois eu sou sempre o radinal, o reacionário.

3 - Quem entregava os subversivos à Gestapo tinha culpa de...entregarem os subversivos à Gestapo. Você acha que o Getúlio Vargas é um assassino? Por mais que eu não goste dele, não acho que ele tenha sido o culpado pela morte de Olga Benário. O culpado pela morte de quem morria pelas mãos da Gestapo era a própria.

4 - Eu não acho nada. Eu acho que eles (os soldados, não o Exército) são, sim, culpados por não terem cumprido sua função constitucional e, sobretudo, por manterem contatos com bandidos. Mas foram eles que mataram? Não. O que eles fizeram estava de acordo com as regras da instituição? Não. Então a culpa da morte não é deles, e sim dos bandidos. Muito menos culpa tem o Exército.

5 - Autor intelectual existe sim. Mas os soldados não tinham poder sobre os bandidos. Em outras palavras, eles não mandavam nos bandidos, os bandidos não estavam a mando dos soldados, portanto não cabe o argumento de autor intelectual. Mas eles têm uma culpa sim, como eu já disse. Já a instituição Exército não.

6 - Não, senhor anônimo, não vou revolucionar o direito penal. Pelo contrário, estou é sendo conservador, estou apenas lendo o que está escrito na lei. Diferente de você, que leu o que NÃO estava escrito no meu texto. Aliás, você sequer entendeu o ocorrido, já que você fez comparações de leões (você sim estaria revolucionando o direito penal, considerando que os bandidos são como leões, cuja natureza é matar, portanto devemos achar isso normal), de mandantes etc. E o único objetivo do meu texto foi dizer que a Instituição Exército não teve a menor culpa nisso. Nem direta, nem indireta...

Mas esperar o quê? Veja nosso presidente...