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20 março 2007

25/07/1995

Rebeca relembra seu passado.

Rebeca e o Desconhecido se beijavam sofregamente enquanto a escada rolante descia. Eram primos, e o Desconhecido era casado. A escada em que desciam levava a um cubículo com uma porta lateral, e ambos sabiam que sua família estava bem atrás dessa porta. Não deveriam estar fazendo isso, mas a vontade era maior.

Ao chegar ao fim da escada, Rebeca empurra o Desconhecido carinhosamente, ajeita o cabelo, e abrem a porta sorridentes, como se nada houvesse acontecido, e são bem recebidos por todos.
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Todos ouvem gritos, sobem pela escada rolante, e vêem, no alto da subida de chão de terra, Rebeca gritando e um homem batendo violentamente nela. O Desconhecido, entra no carro de seu pai. O banco da frente está ocupado por seu pai e por seu irmão mais novo, então ele entra no banco de trás, e grita para subirem o morro rápido. Mas quando o carro está quase alcançando Rebeca, seu pai vira à direita e entra numa rua sem saída, e sem espaço suficiente para que o Desconhecido abra a porta para sair do carro.

Sem entender, o Desconhecido grita que retornem, mas nada acontece. O Desconhecido, então, tira uma arma e atira no vidro traseiro. Termina de arrancá-lo com os pés, sai do carro e corre em direção à Rebeca.

Ao se aproximar, vê o rosto de Rebeca ensaguentado. Ela tenta se defender, mas não consegue. O homem percebe que o Desconhecido se aproxima, e tenta atacá-lo, mas o Desconhecido atira em sua perna, e o homem cai.

A situação se acalma um pouco. O Desconhecido bate no homem até machucar suas próprias mãos. Em seguida, começa a atirar no homem, mas torturando-o. Atira nos dois joelhos, depois nas canelas. Pisa nas pernas do homem e ri. Cospe em cima dele, e atira nas mãos, braços e cotovelos do homem. Não tem a intenção de matá-lo. Ainda não. Atira no estômago do homem - a morte mais dolorosa que se pode ter, pq o ácido clorídrico do estômago espalha-se e 'digere' os outros órgãos, e tudo isso enquanto o homem ainda está vivo.

A última coisa que se ouve do homem é uma jura de vingança e uma risada.

O Desconhecido ajuda Rebeca a se levantar. Abraça-a e chora ao ver seu rosto. O pai e o irmão do Desconhecido se aproximam, dizendo para deixá-la. O Desconhecido, então, aponta a arma e ordena que não se aproximem. Vai até o carro do pai, coloca Rebeca dentro, e parte.

Nunca mais Rebeca foi vista. Não como uma pessoa comum. Não por pessoas comuns.

27 dezembro 2006

A Ponte e a Primeira Noite

Sentada no parapeito da ponte, Rebeca observa a água correndo silenciosa e mansa. Seu vestido vermelho, leve, balança com o vento. A saia, que alcança o joelho, tremula tal qual a bandeira da embaixada onde esteve algumas horas antes.

A chuva começa a cair. Ela observa o efeito que os grossos pingos causam na água. Uma cortina grossa de água varre o rio em sua direção. Quando chegam, encontram-se com suas lágrimas. Seu vestido gruda em sua pele, seus cabelos, que antes estavam livres ao vento, agora grudam em seu rosto.

Seus dedos estão entrelaçados, e ela pensa no quadro. Imagina a temperatura da água. Pergunta-se se a queda machucaria muito. Rebeca sabe que está sendo observada. Pensa que deveria mesmo se jogar.

Um dos vultos sai das sombras e posta-se atrás da moça. O outro acende um charuto e apenas observa.

Homem
Quantas mortes?

Rebeca
Cento e cinquenta. Sem contar os nossos.

Homem
Choras por um traste que não merecia estar vivo. Tu fizeste bem em não teres te metido. Ah, quem dera ter sido uma bala de minha pistola ao invés daquele pedaço de vidro. Todos sabem que eu tinha uma bala especial, com aquele maldito nome gravado. Ele achava graça. Mas não fosse o ocorrido, seu poder acabaria, mais cedo, ou mais tarde. Ele sabia disso. E ele sabia que eu me vingaria.

Rebeca
Ninguém tinha mais opção. Não deveria mais haver ódio entre ninguém. Não foram suficientes as mortes? Não causaram comoção suficiente? Era realmente necessário que um de nós se sacrificasse?

Homem
Há quem tenha se sacrificado de verdade. Ele foi um lixo. Não foi um sacrifício. (Levanta a capa para se proteger da chuva e acende um charuto). Ele teve escolha, mas preferiu desobedecer. Não pude me vingar naquele momento. Ainda fui obrigado a vê-lo sendo condecorado, recebido como herói. Herói, humpf. A morte que teve não foi suficiente para retirar de mim a vergonha... Quem te acompanhaste até a embaixada?

Rebeca
O Delegado. Ele foi até minha casa. Roubaram o quadro. Eu sei quem foi.

Homem
Eu sabia. EU TINHA CERTEZA QUE ACONTECERIA! Eu não havia prevenido?

Rebeca
Fácil falar agora. Muitos supunham. Entretanto, a forma como aconteceu assusta. Ainda sinto aquela presença estranha. Mas talvez o quadro não importe mais. O Delegado ficou para trás na embaixada. Mais uma morte em nome da causa. Mas me vinguei. Após a explosão, eu vi o segurança que o matou queimando. (Gargalhada).

Homem
Não sejas rancorosa. (Respira e dá uma gargalhada). E então, vais saltar?

Rebeca
Vá embora e deixe-me em paz com minha dor. Vocês dois já observaram muito por hoje.

O outro vulto, que somente observava, some de vez nas sombras.

Homem
Claro que iremos. Chegou nossa hora. Também temos nosso show esta noite. Mas nunca se esqueça que sempre estaremos a um passo. Daqui da ponte poderás observar nossa performance. Lembra-te das palmas. Amanhã um novo dia nos trará o resultado desta noite. Aguarda mais instruções. Não tardarão a chegar.

O homem vira as costas e caminha para as sombras, enquanto o outro reaparece e se aproxima da ponte com um envelope nas mãos.

Segundo homem
Pega (entrega o envelope). Às vezes os mortos voltam à vida. Deverias saber disso.

O homem vai embora, e finalmente Rebeca está sozinha. Abre o envelope. Há dinheiro. E há um pingente no formato de um espadim. Ela vira, e vê a inscrição ao longo da lâmina: "Em nome dos bravos que caem sem honras, mas sempre serão honrados". O lema do grupo.

Ela derrama mais algumas lágrimas enquanto coloca o pingente ao redor do pescoço molhado. A chuva diminui. Está quase na hora. Ela levanta os olhos, e observa a explosão. Mais um símbolo cai. Tinha que ser assim? Sim...

03 dezembro 2006

O quadro

Enquanto Rebeca assiste ao noticiário, nota o repórter falando de forma diferente do habitual ao referir-se à morte "dele". Parecia tremer.
Lembrou-se que "ele" não existia da forma como o repórter falava, ou da forma como as pessoas viram "seu" corpo no banheiro e no necrotério.

O delegado a deixara nervosa. O escrivão a acalmou com uma cantada barata. Não que fosse vulgar, mas lembrou-se de que no mundo tudo estava bem - "Como existe gente ridícula neste universo!".

Após o noticiário, pensou se deveria ligar para o repórter ou se deveria admirar "sua" obra. Optou pelo segundo.

Levantou-se do sofá (ah, o sofá), caminhou à cozinha. Deu um tapa no gato que insistia em dormir sobre a mesa:
-Gato desgraçado. Nem com "ele" morto você me dá sossego!

Abriu a porta e desceu as escadas. Acendeu as luzes do porão e viu a obra. O quadro a mantinha em estado de êxtase. Rebeca passava horas admirando os traços, as cores. Não, aquilo não era comum. Não era humano. Impossível.

O telefone tocou, e Rebeca correu para alcançá-lo na cozinha. Mais uma vez, o gato sobre a mesa. Desta vez não ligou. Ao atender, ouviu ruídos estranhos. Um frio subiu por sua espinha, e Rebeca encolheu-se na parede, cuidando para que ninguém a atacasse por trás - instinto de defesa em alerta máximo.

O telefone foi desligado. Ela discou, descoordenadamente, para o delegado.

Delegado
-O que você quer? Não sabe que não conversamos com suspeitos de assassinato? Ha ha ha.

Rebeca
Vá à merda. Preciso de você aqui. Algo está para acontecer, sinto isso.

Delegado
Vá dormir, acha que tenho 12 anos? Aliás, você bem sabe que não tenho 12 anos, não é?

Rebeca
Não estou brincando. Não fui totalmente sincera na delegacia. Existe algo que preciso contar, mas sei que não devia. Talvez seja minha fraqueza que causa essa sensação de medo. Pânico, medo não.

Delegado
Filha de uma puta, agora está me escondendo coisas?

Rebeca
Seja mais educado e terá tudo que quer de mim. Você é um cavalo, não reconheceria algo "dele" nem se estivesse na sua cara. Faça um favor p/ você mesmo e morra. Babaca inútil. E trate de dar um jeito naquele escrivão de merda. Já ouvi cantadas melhores de presidiários sem primeiro grau. E ainda dizem que é difícil ser policial. Rá. Difícil é ser bom policial. Cavalgaduras como você vemos às dúzias.

Delegado
Hahaha. Quer ser algemada hoje é? Respeite minha autoridade. Só para constar, "ele" me deixou a resposta sobre o quadro. Não que lhe interesse, pois você tem esse maldito quadro e só vê o que quer. O mais óbvio, o essencial lhe passa a quilômetros. Incompetência feminina. Falta de lógica. Mas não se preocupe. Vou p/ aí. Se não for nada demais, aproveitamos e fazemos uma fogueira com o quadro. Era o objetivo inicial mesmo. Queimar, queimar. Enquanto sinto seu corpo queimando. Poético, não?

Rebeca
Vá à merda. E a lista de ligações?

Delegado
Já disse que não falamos com suspeitos sobre investigações. Está curiosa, é? Bom, dependendo do agrado que você me fizer, podemos pensar a respeito. Só para começar a matar sua curiosidade, a lista já chegou à minha mesa. Você nem imagina a surpresa que eu tive ao lê-la. Rá, não imagina mesmo, pois só vai saber junto com todos os outros.

Rebeca
Imbecil. Não quero saber dessa porcaria. Apenas esteja aqui o mais rápido possível.

Desligou. A sensação de medo aumentava. Conversar com o delegado não ajudou. De que respostas falava? O que era o essencial? Sentiu raiva "dele", pois acreditava saber de tudo. Mas lembrou-se de que era apenas parte de algo grandioso. Ninguém sabe tudo. Nem "ele" sabia tudo. Mas ele fez o quadro. Ou disse que fez.

Desceu as escadas. O quadro não estava lá.

Rebeca (chorando)
-Foi o repórter. O REPÓRTER!

04 novembro 2006

Rebeca e a morte

Delegado
- O que a senhora lembra daquela noite?

Rebeca
- Estávamos na mesa, aguardando o pedido. Estava tudo bem, ele estava alegre, ríamos. O celular tocou, e ele atendeu. Deu uma risada, perguntou como seu interlocutor estava, se tudo estava nos conformes. Não sei do que falavam. De repente, sua expressão ficou vazia. Ele olhava para o nada. Suspirou, e uma lágrima caiu de seu olho direito. Lembro-me que era do olho direito. Não sei porque esse detalhe ficou gravado na minha memória. A lágrima caiu, e rolou até o canto do lábio. Ele baixou a cabeça. Estava em silêncio desde quando mudou a expressão. Tirou o telefone do ouvido, olhou para o aparelho. Levantou-se e correu para o toalete.

- Fiquei surpresa, sem entender, mas achei melhor deixá-lo e perguntar o que acabara de ocorrer em outra hora.

(Rebeca acende um cigarro)
- Um barulho forte, de vidro quebrando, e todas as pessoas no restaurante viraram-se para o toalete. Quando uma funcionária entrou, um grito. Corri. E vi sangue por todo o lado. Ele quebrou o espelho, pegou um pedaço do vidro e o cravou em seu pescoço... (suspiro). Tentei alcançar o celular. O filho da puta apagou as chamadas recebidas.

Delegado
- Filho da puta!


(continua...?)